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NO LIMIAR DO MUNDO VISÍVEL: A NOÇÃO DE ESQUEMA CORPORAL NOS CURSOS DE MERLEAU-PONTY NA SORBONNE 1. Danilo Saretta Verissimo

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NO LIMIAR DO MUNDO VISÍVEL: A NOÇÃO DE ESQUEMA CORPORAL NOS CURSOS DE MERLEAU-PONTY NA SORBONNE 1 Danilo Saretta Verissimo Resumo: De acordo com o propósito geral de estudar longitudinalmente o uso que Merleau-Ponty faz da noção de esquema corporal em sua filosofia, no presente artigo dedicamo-nos aos seus cursos na Sorbonne, localizados em um período intermediário da sua obra. Neles, o filósofo enceta discussões acerca da corporeidade a partir da psicologia da criança e da psicanálise, tomando por eixos centrais o problema da intersubjetividade e a teoria do esquema corporal. Merleau-Ponty compreende que a aquisição de um esquema corporal uno, total, implica um descentramento de si, de modo que o corpo próprio, o de outrem e o mundo possam se entrelaçar num tecido relacional que envolve inextricavelmente visibilidade e espessura intracorporal. Consideramos que nesses estudos Merleau-Ponty dá um importante passo em direção à noção de carne tal como encontrada em seus textos mais tardios. Palavras-chave: Merleau-Ponty (Maurice). Esquema corporal. Corporeidade. Fenomenologia. 1 Apoio: Fundação para o Desenvolvimento da UNESP (FUNDUNESP) e Pró-Reitoria de Pesquisa da UNESP (PROPe). 367 Introdução Este artigo faz parte do propósito geral de estudar longitudinalmente o uso que Merleau-Ponty faz da noção de esquema corporal em sua filosofia. O filósofo a debate em diversos momentos da sua obra: na Fenomenologia da percepção (Merleau-Ponty, 1945) 2 ; nos Cursos da Sorbonne (Merleau-Ponty, 1997, 2001a, 2001b, 2011c, 2001d, 2001e); nos cursos do período do Collège de France, particularmente em O mundo sensível e o mundo da expressão (Merleau-Ponty, 2011) e em A Natureza (Merleau-Ponty, 1994); e também no livro póstumo, O Visível e o Invisível (1964/2006). Ao realizar este estudo, interessa-nos especialmente examinar o papel que o desenvolvimento crítico da noção de esquema corporal possa ter desempenhado na passagem do momento inicial da obra de Merleau-Ponty, marcado pelo caráter arqueológico descritivo (Barbaras, 1998, 2001) e centrado na ideia de encarnação, ao momento em que uma nova ontologia começa a ser esboçada em torno da noção de carne. Ao tratar dessa passagem, Saint Aubert (2008a) faz referência à investida do filósofo, a partir de 1953, sobre as teorias do esquema corporal, ponto de cruzamento de campos não filosóficos aos quais Merleau- Ponty se dedicara desde os seus primeiros trabalhos, como a neurologia, a psicologia da criança e a psicanálise. Aquela passagem, todavia, começa a ser concebida já entre 1946 e Trata-se de um período na carreira de Merleau-Ponty que se situa entre a publicação de suas teses e a redação de seus últimos escritos. Essa fase de gestação (Saint Aubert, 2008a, p. 18) nutre-se de discussões acerca da corporeidade no interior, principalmente, da psicologia infantil e da psicanálise. Essas discussões encontram-se nos cursos da Sorbonne, realizados por Merleau-Ponty (1997, 2001a, 2001b, 2001c, 2001d, 2001e) 3 entre 1949 e É neles que nos centraremos no presente artigo. Após a Fenomenologia da percepção Na Fenomenologia da percepção, Merleau-Ponty (1945) enceta suas primeiras análises acerca da noção de esquema corporal a partir de dis- 2 Acerca do exame da noção de esquema corporal na Fenomenologia da percepção, cf. Verissimo (no prelo). 3 O curso intitulado Les relations avec autrui chez l enfant possui duas versões. Uma delas (Merleau-Ponty, 2001a) consiste em um resumo de curso baseado em anotações de alunos e aprovado pelo próprio Merleau-Ponty. Em realidade, todos os cursos apresentados no livro Psychologie e pédagogie de l enfant possuem essa natureza. A outra versão (Merleau-Ponty, 1997) contempla apenas a primeira parte daquele curso, no entanto num formato mais amplo e textual, tal como apresentado por Merleau-Ponty ao Centre de Documentation Universitaire. 368 NO LIMIAR DO MUNDO VISÍVEL: A NOÇÃO DE ESQUEMA CORPORAL NOS CURSOS... DANILO SARETTA VERISSIMO cussões elaboradas pela neuropsicopatologia do início do século XX. É comum que se atribua ao neurologista Henry Head as elaborações iniciais da noção de esquema corporal. A partir do estudo de perturbações da localização de estímulos externos, Head foi levado a admitir a existência de modelos ou esquemas táteis, visuais, posturais e motores do corpo (Hécaen & Ajuriaguerra, 1952). De modo mais geral, trata-se de reconhecer a existência de um sistema dinâmico que constitui modelos organizados acerca de nossa condição corporal e que governa, principalmente, nossa postura e nossa motricidade. Segundo o autor, em grande medida esse sistema permanece fora de nossos domínios conscientes (Gallagher & Cole, 1995; Head & Holmes, 1911), consideração que põe em relevo o caráter infrarepresentacional do conhecimento que o corpo possui acerca da sua situação (Saint Aubert, 2008a). Conrad (1933 citado por Hécaen & Ajuriaguerra, 1952) aborda a ambiguidade da noção de esquema corporal no pensamento de diferentes autores no início do século XX. Em alguns, ela reveste-se com características de um fato psicológico, em outros de um fato fisiológico. De qualquer modo, em ambos os quadros conceituais gravita-se em torno de um ideário empirista. Os dados interoceptivos e propriocetivos alimentariam esquemas associativos de ordem puramente fisiológica ou dariam origem a esquemas associativos de ordem representacional que, mesmo não conscientes, estariam sempre prontos a atuar. O tratamento dado por Merleau-Ponty à noção de esquema corporal é coerente às críticas operadas n A estrutura do comportamento (Merleau-Ponty, 1942) no que concerne ao mecanicismo e ao atomismo que marcam a psicologia experimental das primeiras décadas do século XX. Verissimo (no prelo) mostra que o filósofo, na Fenomenologia da percepção, dessubstancializa a noção de esquema corporal. O que significa dizer que o filósofo atém-se à fenomenalidade daquilo que possa estar implicado nesse conceito, e esquiva-se de atribuir alguma positividade a ele. Sob os auspícios de uma intencionalidade motora, de função precognitiva devedora das sensações advindas de várias partes do corpo, a noção de esquema corporal passa, com Merleau-Ponty, a expressão da permeabilidade das partes do corpo umas em relação às outras, bem como da permeabilidade do corpo em relação ao mundo e a outrem. A estabilidade do mundo percebido é então descrita como análoga à experiência que temos do nosso corpo: estável e organizada enquanto forma (Gestalt). As pesquisas de Merleau-Ponty que se iniciam em torno de 1945 buscam fixar o sentido dos trabalhos anteriores (Merleau-Ponty, 2000a) no interior de um panorama de crítica aos seus limites. Desde seus primeiros livros, Merleau-Ponty opera segundo o registro de uma intenção ontológica distinta da ontologia clássica, que perpetua a cisão entre sujeito e objeto. É preciso reconhecer, todavia, que Merleau-Ponty à época 369 da Fenomenologia da percepção ainda não contava com instrumentos teóricos que lhe permitissem ultrapassar verdadeiramente o intelectualismo, conforme observa Bimbenet (2004). Para Barbaras (1998), na medida em que, naquele livro, Merleau-Ponty busca distanciar o corpo da ideia de objeto e a consciência da ideia de intelecção, a experiência perceptiva aparece como uma mistura de facticidade e de idealidade (p. 188). Pode-se afirmar que Merleau-Ponty conserva o problema da percepção como seu grande tema de investigação (Barbaras, 1999). Suas pesquisas continuam voltadas para nossa experiência bruta do mundo que se situa aquém da reflexão e da análise científica. O estudo da percepção sofre, não obstante, uma importante metamorfose ao se tornar investigação acerca do sensível. Doravante, trata-se de atribuir ao corpo não apenas o caráter de sujeito da percepção, mas também de ente percebido, ente sensível, na amplitude polissêmica do termo, o que teria por efeito afirmar a implicação do sujeito no mundo como inerente à estrutura do aparecer (Barbaras, 1999, p. 105). Nesse contexto, a percepção passará a ser descrita cada vez mais por figuras carregadas de afeto (Saint Aubert, 2004), cada vez mais dotadas do poder de interferir no mundo das coisas e da coexistência, e de se deixar contaminar por eles. A noção de esquema corporal é uma dessas figuras. Neste trabalho, tomamo-la como princípio emblemático em relação às torções conceituais que são operadas nessa passagem do problema da percepção ao problema do sensível, justamente por considerarmos sua importância enquanto instrumento teórico na germinação do projeto ontológico final de Merleau-Ponty. A noção de esquema corporal nos cursos da Sorbonne Nos trabalhos posteriores à Fenomenologia da percepção, o problema da intersubjetividade adquire grande importância para Merleau- Ponty. É nesse panorama que o autor recorre à noção de esquema corporal. Essa mobilização conceitual ocorre em seus cursos da Sorbonne dedicados à psicologia da criança. Com efeito, nesse contexto ela recebe um tratamento que a eleva a um papel central na ontologia merleaupontiana. A filosofia de Merleau-Ponty é um projeto de retorno à experiência em estado nascente, à experiência antes da sua objetivação tardia pela ciência e anterior às elaborações do intelectualismo filosófico. Tal experiência coincide com um fundamento na ordem transcendental da constituição, aquilo sem o que a ciência e filosofia não seriam possíveis. O fato é que, na obra do filósofo, essa anterioridade lógica aparece, frequentemente, sob o estatuto empírico de uma anterioridade cronológica, afirma Bimbenet (2002). A experiência infantil pode passar por essa expe- 370 NO LIMIAR DO MUNDO VISÍVEL: A NOÇÃO DE ESQUEMA CORPORAL NOS CURSOS... DANILO SARETTA VERISSIMO riência em estado nascente, anterior à capacidade humana de objetivála. Trata-se de uma experiência que realiza uma redução espontânea, um retorno fenomenológico ao passado do pensamento objetivo (Bimbenet, 2002). Nesse sentido, a disposição para considerar o que falta à jovem criança para raciocinar como um adulto normal de cultura média (Piaget, 1964, p. 89) vereda muitas vezes escolhida pela psicologia, implica abandonar a possibilidade de compreensão da gênese do ser para nós 4. Merleau-Ponty, por sua vez, volta-se à psicologia infantil interessado na maneira com que a criança antecipa a vida adulta (Bimbenet, 2004, p. 288). Nasce daí uma prefiguração original do conceito de carne (p. 273) sustentada, em grande medida, pela noção de esquema corporal. Em seu primeiro curso na Sorbonne, intitulado A consciência e a aquisição da linguagem, Merleau-Ponty (2001b) trata de justapor a percepção do comportamento de outrem e a percepção do corpo próprio enquanto esquema corporal numa única organização em que se dá a identificação entre mim e outrem. Essa temática percorre todos os cursos desenvolvidos entre 1949 e 1952, mas é naquele intitulado As relações com outrem na criança que ela é amplamente abordada. Nele, Merleau-Ponty (1997, 2001a) interessa-se particularmente pela gênese da percepção do outro. O autor se orienta por questões como as condições em que a criança passa a ser capaz de estabelecer contato com outrem, a natureza dessa relação e como ela é possível no estágio inicial da vida. Segundo o filósofo, trata-se de problemas que representam um verdadeiro embaraço teórico para a psicologia clássica 5, visto que os prejuízos que adota tornam a nossa relação com outrem teoricamente incompreensível. As ideias de psiquismo e de cenestesia levam o problema da percepção de outrem a ser concebido como um complexo sistema a quatro termos. O primeiro deles é meu próprio psiquismo, definido como âmbito de uma experiência íntima que é dada a cada indivíduo conhecer. O segundo termo é meu corpo enquanto invólucro do psiquismo. De 4 Piaget figura como referência central em diversos momentos dos Cursos da Sorbonne, mas não em relação ao tema central do presente artigo, a noção de esquema corporal. Por conta disso, optamos por não nos determos às críticas que Merleau-Ponty opera em relação à obra do psicólogo. O leitor poderá encontrar essa discussão em Verissimo (2011). Trata-se de um artigo em que retomamos as análises de Merleau-Ponty sobre as teorias da psicogênese em Wallon, após focalizarmos o posicionamento do filósofo face à psicologia do desenvolvimento, especialmente a representada pela teoria genética de Piaget. Cumpre dizer que, de modo geral, Merleau-Ponty imputa a Piaget uma concepção idealista do desenvolvimento, cujo cerne é a pressuposição de que a conquista da dimensão objetivante da inteligência implica a ruptura com os estágios anteriores, atrelados à vida perceptiva e motora. Sobre este tema, cf., ainda, Saint Aubert (2008b). 5 Ao referir-se à psicologia clássica, Merleau-Ponty (1997, 2001a) faz alusão às teorias associacionistas em psicologia que vicejaram na Europa e nos EUA até as primeiras décadas do século XX. 371 fato, não se trata propriamente do meu corpo, mas da imagem que formo dele a partir de processos cenestésicos, a partir de uma massa de sensações brutas (Merleau-Ponty, 2001a, p. 310) que me transmitem informações acerca de meus diferentes órgãos e funções. O terceiro termo é o corpo de outrem tal como se apresenta para mim, seu corpo visual. O elemento que falta é o sentimento que outrem possui acerca de sua própria existência, termo que me é inacessível, porquanto o psiquismo do outro não pode ser acessado diretamente. Resta acessá-lo indiretamente por meio de suas manifestações corporais. Dada a relação entre minhas próprias expressões corporais e meu psiquismo, devo, pois, deduzir o conteúdo psíquico de outrem por meio de suas manifestações corporais. Tudo se passa como se fosse necessário interpretar o comportamento aparente e transferir a outrem a experiência íntima que tenho de meu corpo (Merleau-Ponty, 1997). Em suma, toda essa operação pressupõe uma espécie de raciocínio por analogia incompatível com o fato de que a percepção de outrem é bastante precoce na vida de uma criança. Tal como já analisado na Fenomenologia da percepção, não é possível imaginar que a sensibilidade do bebê a aspectos fisionômicos tais como o sorriso do adulto passe por uma compreensão do sorriso tal como experimentado por meio de elementos interoceptivos pela própria criança. Ainda que ela contasse com imagens visuais do próprio sorriso, estaríamos pressupondo a realização de um esforço sintético que não é condizente com as possibilidades infantis. O impasse teórico que cerca o problema da percepção de outrem pode ser solucionado desde que se abandonem os prejuízos da psicologia clássica. Isso implica a reforma das noções de psiquismo e de cenestesia em prol das noções de conduta e de esquema corporal, considera Merleau-Ponty (1997, 2001a). Essa reforma conceitual é operada pelo filósofo por meio da mobilização de aportes teóricos da psicologia, a partir de Paul Guillaume e Henri Wallon, e da filosofia, a partir de Edmund Husserl. Deparamo-nos com outrem diretamente em sua conduta. Suas ações possuem um sentido cuja apreensão não depende de atos de intelecção, assevera Merleau-Ponty (2001a). Em Husserl (1931/2001), lêse que o cogito é um estado intencional e que as coisas não figuram nele como elementos reais, mas como sentido imanente a uma estrutura sintética passiva. Lê-se ainda que essa estrutura sintética compreende um horizonte intencional que engloba nossas possibilidades de ação, um eu posso, proposição que Merleau-Ponty (2001b) interpreta como afirmação do eu enquanto sujeito motor e não como sujeito contemplativo 6. 6 Mais adiante, voltamos a Husserl (1931/2001) para tratar especificamente da questão da experiência do outro, que é abordada pelo autor por meio da ideia de acoplamento. 372 NO LIMIAR DO MUNDO VISÍVEL: A NOÇÃO DE ESQUEMA CORPORAL NOS CURSOS... DANILO SARETTA VERISSIMO Nesse sentido, Merleau-Ponty (1997, p. 176) atrela a ideia de intencionalidade à de conduta, e comenta: Meu psiquismo não é uma série de estados de consciência rigorosamente fechados sobre eles mesmos e impenetráveis para todo outro. Minha consciência é, antes, voltada para o mundo, voltada para as coisas, ela é antes de tudo relação com o mundo. A consciência de outrem, ela também, é, antes de tudo, uma certa maneira de se comportar a respeito do mundo. É, pois, em sua conduta, na maneira com que outrem trata o mundo que poderei encontrá-lo. O filósofo depara-se com traços dessa concepção da intencionalidade nas análises de Guillaume (1926/1968) acerca da imitação na criança. Guillaume (1926/1968) julga as teorias clássicas sobre a imitação na infância pouco naturais. Segundo o autor, elas repousam sobre o postulado de que a imitação implica uma dupla tarefa de identificação por parte da criança, mesmo a bem pequena: ela deveria identificar previamente as partes do próprio corpo envolvidas na situação, bem como as atitudes e movimentos tanto do modelo quanto de si mesma. Guillaume (1926/ 1968) pergunta: ao invés de condição das primeiras imitações, não será essa identificação entre o corpo de outrem e o da criança a partir de seus aspectos cenestésicos e visuais um efeito delas? As observações realizadas pelo psicólogo mostram que crianças entre 3 e 15 meses de idade interessam-se pelo resultado dos atos humanos que presenciam. Aos 4 meses de idade, o filho de Guillaume, depois de olhar o pai tocar piano, leva suas mãos às teclas, buscando esses objetos móveis, brilhantes e sonoros (Guillaume, 1926/1968, p. 115). É o objeto e não os gestos da mão adulta que parecem chamar a sua atenção, afirma o psicólogo. O mesmo menino, aos 9 meses, após ver o pai escrever, pega o lápis na mão fechada e o bate contra o papel. Depois, ao perceber que a ponta do lápis está voltada para o alto, vira-o. Em seguida, deixa de bater com o instrumento e passa a traçar grandes rabiscos. Segundo Guillaume (1926/1968), nesse exemplo não está em jogo a relação entre a mão do modelo adulto e o lápis, nem a relação entre a ponta do lápis e o papel. A criança empenha-se em reproduzir o resultado observado, a ação do lápis sobre o papel, e não o movimento e a posição da mão do modelo. Depois de descrever outros vários exemplos, tais como a tentativa por parte da criança de matar uma mosca com um jornal dobrado ou de colocar uma chave na fechadura, o autor chama a atenção para o fato de que os modos empregados por ela, os movimentos que realiza, diferem dos empregados pelo modelo, o que reafirma que seu foco é o resultado da ação. Ainda não é o ato enquanto conjunto de movimentos que é imitado, são os efeitos, únicos elementos sensíveis, comuns ao modelo e à cópia, afirma Guillaume (1926/1968, p. 118). 373 Aos olhos de Merleau-Ponty (2001a), a inversão teórica praticada por Guillaume é uma ideia profunda e fecunda (p. 32). Ela estabelece o papel essencial de um terceiro termo entre outrem e a criança: o mundo exterior, os objetos aos quais se dirigem tanto as ações de outrem como as dela. O filósofo comenta: inicialmente não temos consciência do nosso corpo, mas das coisas: há uma quase-ignorância das modalidades de ação, mas o corpo move-se em direção às coisas. A imitação não se compreende senão como encontro de duas ações em torno do mesmo objeto: imitar não é fazer como outrem, mas chegar ao mesmo resultado. (Merleau-Ponty, 2001a, p. 32) Isso equivale a dizer que a criança não dispõe de seu corpo enquanto aglomerado de sensações duplicadas em imagens topográficas, posturais e motoras, mas como um meio sistemático de ir aos objetos (Merleau- Ponty, 2001a, p. 33). Com efeito, a noção de conduta, que substitui a de psiquismo, pressupõe uma reforma da noção de corpo, o que interessa sobremaneira à Merleau-Ponty. O filósofo escreve: Se meu corpo deve poder retomar por sua conta as condutas que me são dadas como espetáculo, é preciso que ele me seja dado, não mais como uma massa de sensações rigorosamente privadas, mas sobretudo pelo que se chama um esquema postural, ou esquema corporal. (Merleau-Ponty, 1997, p. 177) Entre os diversos auto
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