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Entrevista Lehmann

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  DOI: 10.11606/issn.2238-3867.v13i2p236-251Sala aberta Teatro pós-dramático e processos de criação e aprendizagem da cena: um diálogo com Hans-Thies Lehmann 1 Hans-Thies Lehmann 2 Marcos Bulhões Martins 3 Wolfgang Pannek 4 Verônica Veloso 5 Tradução: Wolfgang Pannek. REVISTA SALA PRETA - Dando continuidade à serie de entrevistas intitulada Pedagogia de Cena Contemporânea  , gostaríamos de dialogar, a partir doa teoria do teatro pós-dramático 6 , sobre as relações entre criação e aprendizagem.  Alguns autores, tais como Monique Borie e Beatrice Picon-Vallin, destacam a relevância das relações pedagógicas para a renovação das práticas teatrais, fazendo referência ao estúdio de Meyerhold, aos laboratórios de Stanislávski, Grotowski e Eugênio Barba, dentre outros. No Brasil, poderíamos citar o Centro de Pesquisa Teatral liderado por Antunes Filho, e os diversos experimentos pedagógicos realizados no Teatro Oficina, por exemplo. A renovação estética 1 Entrevista de Marcos Bulhões Martins com Hans-Thies Lehmann, realizada com a participação de Wolfgang Pannek e Verônica Veloso. Tradução de Wolfgang Pannek.2 Hans-Thies Lehmann é professor de Estudos Teatrais da Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt am Main. Membro da Academia Alemã de Artes Cênicas, trabalhou como dramaturgo com diretores de destaque na Europa, como o alemão Christof Nel e o grego Theodoros Terzopoulos. Reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes teóricos da estética teatral e do teatro contemporâneo, tem inúmeros trabalhos publicados na Alemanha e também em outros países. Seu livro mais conhecido no Brasil é Teatro Pós-dramático (2007). 3 Diretor, professor e pesquisador de Teatro e Performance, estuda abordagens metodológicas de criação e aprendizagem da cena contemporânea. Realizou estágios em Teatro do Movimento na Alemanha e em Dramaturgia no Institut del Teatre de Barcelona além de mestrado e doutorado em Artes Cênicas pela USP. Diretor artistico e membro da coordenação do Desvio Coletivo, rede de criadores.4 Diretor, performer, autor, tradutor e produtor. M.A.(filosofia, letras e psicologia) pela FernUniversität Hagen (Alemanha). Integrante (1992) e codiretor (1994) da Taanteatro Companhia. Organizador da Hans-Thies Lehmann Brasil Tour 2010.5 Doutoranda e Mestre em Artes Cênicas pela ECA/USP (com apoio da FAPESP - 2009). Graduada em Licenciatura em Educação Artística com Habilitação em Artes Cênicas pela mesma universidade (2004). Integrante do Coletivo Teatro Dodecafônico, coletivo de artistas que pesquisa procedimentos contemporâneos para a criação teatral, desde 2008.6 LEHMANN, Hans-Thies. Teatro pós-dramático . São Paulo: Cosac & Naify, 2007  237 da cena pode ser resultante de processos que não dissociam aprendizagem e criação, tendo em vista o desenvolvimento de novas formas de atuação, capazes de enfrentar os desafios da dramaturgia que escapa aos moldes convencionais. O que o senhor desta abordagem de criação artística vinculada a processos educacionais? HANS-THIES LEHMANN - Na Alemanha há uma forte tradição unindo o teatro e a escola. Por isso estou dividido no que diz respeito à relação entre teatro e pedagogia. Antigamente o teatro alemão foi levado adiante por estudiosos - eruditos ou não, como em outros países europeus, pela corte. Por isso o teatro alemão sempre foi mais um lugar do ensino do que do entretenimento. Na clássica alemã encontramos sempre programas de educação: Lessing, Schiller, Goethe. Esses autores compreenderam o teatro como instrumento pedagógico. O teatro como instituição moral de acordo com Schiller, a educação do gênero humano de acordo com Lessing. O terceiro fator dessa história é sem dúvida a política cultural do movimento trabalhista. Foi a democracia social do século 19 que ancorou na sociedade alemã a ideia que o estado responde pela difusão da educação das massas no país inteiro. Por isso temos esse singular sistema do teatro alemão. Não é um acaso que a maior contribuição alemã à história do teatro seja Bertholt Brecht, um autor que enxerga relações fortes entre teatro e pedagogia. Essa dimensão confere ao teatro alemão uma especificidade muito inte-ressante que é responsável pela acentuada intelectualidade do teatro alemão. Em comparação com outras paisagens teatrais pode-se dizer que o teatro alemão seja, tendencialmente, muito reflexivo. Temos também a instituição do dramaturg , ou seja, do intelectual no teatro que funciona como um interlocutor do diretor, entre outras tarefas. Isso não existe na maioria dos países, onde dramaturg  significa algo como dramaturgo 7 . Mas na Alemanha o dramaturg é um conselheiro intelectual no teatro. Essa função do ganhou ainda mais força nos anos 70, epoca da grande politização do teatro alemão. Atualmente muitas vagas de dramaturgs  são cortadas porque, é preciso dizer isso, o teatro se transforma cada vez mais num empreendimento do entretenimento. Para quem desconhece o teatro alemão é importante saber desse desenvolvimeno histórico que produziu uma qualidade intelectual mas também um grande problema. O problema é que muitas pessoas, muitos críticos e o próprio público, confundem a cadeira do teatro com a carteira da escola. As pessoas vão ao teatro para apreender. Nesse sentido penso que 7 A palavra alemã para dramaturgo, isto é o autor de peças teatrais, é Dramatiker  .  238 o teatro deve manter uma grande distância da pedagogia. O teatro não é o lugar onde se apreende literatura, tampouco é o lugar onde se apreende responder a questões sociais e de assumir uma posição política. Creio que é preciso analisar a relação entre teatro e pedagogia de forma muito diferenciada. Não sei se sua pergunta se refere também à questão do engajamento político do teatro. SP - Ainda não. Pergunto se nos artistas que realizam o que o senhor denomina de teatro pós-dramático é possível enxergar um vinculo entre um pensar peda-gógico e a busca de um novo ator, aquele que necessita desenvolver em sua formação algumas capacidades técnicas distintas daquelas do ator preparado, por exemplo, para atuar num registro realista. LEHMANN - Eu acredito que o fazer teatro em si enquanto  praxis  seja já um processo pedagógico. Não é necessário buscar a pedagogia no teatro. O teatro é essen-cialmente uma colaboração, não somente no teatro de grupos mas também no teatro institucionalizado. É uma prática social por excelência e, portanto, possui valor educativo para a sociedade, para o comportamento, para a igualdade dos participantes de uma encenação. Por outro lado, considerando a situação alemã, pode-se constatar a intensa recepção do livro Teatro pós-dramático  no meio da pedagogia teatral. É uma história complexa mas o foco principal desse interesse refere-se ao seguinte: por muito tempo a pedagogia no teatro infantil e juvenil visava um teatro feito para crianças. Com Teatro Pós-dramático  aumentou a coragem de fazer um teatro com crianças, não somente para elas. Essa ideia que o teatro seja uma  praxis  que pode ser feita por crianças foi, além de outros motivos da discussão mais recente, reforçada por Teatro Pós-dramático . Existe, por exemplo, um trabalho maravilhoso do grupo inglês Forced Entertainment  , um teatro para adultos feito por crianças que se dirigiam ao público adulto num jogo produzido pelo grupo, bastante iluminador e esclarecedor. As falas diziam: “de noite você nos levam para dormir dizendo que dia de amanhã será lindo”, “você ficam nos vigiando”, “vocês nos proíbem de sair sem luvas”, dentre outras. Esta foi uma atuação cênica realiada por meio deste enfoque, e um maravilhoso espetáculo pós-dramático que consistia somente na fala das crianças dirigida aos adultos. Uma encenação carinhosa e crítica que proporcio-nava o sentimento: algo na relação entre crianças e adultos é inteiramente impossível, há algo que deveria ser inteiramente diferente. Não foi simplesmente uma crítica ou mensagem ‘sejam menos autoritários’, mas uma transmissão teatral sobre a necessi-dade de uma transformação da relação entre adultos e crianças. Há também uma artista alemã que trabalha com crianças e adultos sobre o tema da catastrofe. As crianças  239 divertem-se criando pequenas catastrofes com água e fogo e assim lidam com a ideia da morte. Esses são exemplos da pedagogia teatral atual onde o teatro pós-dramático e a pedagogia se unem diretamente, sem instrumentalizar o teatro para fins pedagogicos. Existe mais confiança nas crianças. Acredita-se que crianças podem se alegrar com um teatro sem fabula. Antigamente isso seria impensável. SP - O senhor conhece outros grupos que trabalham com crianças? LEHMANN - O grupo Rimini-Protokoll trabalhou com crianças sobre o tema do comércio de armas na Suiça, sobre jovens de 14 a 15 anos que atiram por prazer. Um dos melhores grupos no campo pós-dramático, a Socìetas Raffaello Sanzio dirigida por Romeu Castellucci na Itália, realizou trabalhos com  e  para  crianças. Creio que existe no teatro pós-dramático um relação forte entre formas teatrais pós-dramáticas e uma nova alegria de brincar voltada às crianças em função da dissolução da fronteira que separa público e performer, no sentido do termo alemão “ spieler  ” e inglês “  player  ”, ou seja, na instância de um jogador, do ator como brincante. SP - Como o senhor vê o conceito do teatro pós-dramático na formação escolar na Alemanha? As instituições de ensino fundamental e médio consideram esta abordagem do teatro pós-dramático, inclusive a perspectiva de uma formação do espectador? LEHMANN - Na Alemanha existe, de um lado, a pedagogia teatral profissional. Trata-se de pessoas empregadas pelos teatros para irem às escolas, preparar o público para a apresentão teatral e para discutir com o publico. Por outro lado existe, não importa se chamamos isso de pós-dramático ou não, a tradição forte do teatro da direção,  o Regietheater  . Os alunos são preparados para experienciarem algo no teatro que diverge da expectativa dos professores de presenciarem no teatro uma bela ilustração da peça lida no ensino escolar. Temos de um lado a pedagogia teatral que prepara o público para novas formas de teatro. Um segundo nível é o trabalho do peda-gogo teatral nas próprias escolas, organizando grupos de teatro e realizado apresen-tações com os alunos. Esses pedagogos leem Teatro pós-dramático  como incentivo para experimentar formas abertas com os alunos, por exemplo, mesclando narrações biográficas com dança. Existe uma recepção desse conceito e dessas formas teatrais nos trabalhos concretos da pedagogia teatral. Mas trata-se sempre de casos excepcio-nais, de escolas e pedagogos específicos que desenvolvem tais trabalhos. Não é um elemento sistemático do ensino escolar.
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