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Vilém Flusser, A filosofia do exílio e a leitura de um país chamado Brasil

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Tradução em Revista , 2010/02, p. 01-19 VILÉM FLUSSER: FILOSOFIA DO EXÍLIO E LEITURA DE UM PAÍS CHAMADO BRASIL1 Márcio Seligmann-Silva 1. As Pontes Vilém Flusser é autor de um pequeno e contundente texto escrito em inglês batizado com o título “The bridge”. Esta engenhosa peça autobiográfica abre o volume Jude Sein organizado por Stefan Bollmann e Edith Flusser. O texto se inicia com uma descrição da casa da infância do autor em Praga. Nos fundos desta casa encontrava-se a fábrica do avô mater
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  Tradução em Revista , 2010/02, p. 01-19   Submissão em 15.10.2010, aprovação em 30.11.2010   VILÉM FLUSSER: FILOSOFIA DO EXÍLIO E LEITURA DE UM PAÍSCHAMADO BRASIL 1   Márcio Seligmann-Silva 1. As Pontes Vilém Flusser é autor de um pequeno e contundente texto escrito em inglês batizado com o título “The bridge”. Esta engenhosa peça autobiográfica abre ovolume  Jude Sein organizado por Stefan Bollmann e Edith Flusser. O texto se iniciacom uma descrição da casa da infância do autor em Praga. Nos fundos desta casaencontrava-se a fábrica do avô materno, Julius Basch, elegantemente denominada de“Fabrique des colorants inoffensifs”. Ligando a cozinha do avô ao prédio da fábricahavia uma ponte que dava diretamente na cobertura da fábrica, onde havia um jardim.Desta ponte Vilém e sua irmã Ludvika costumavam observar os trabalhadores no pátio da fábrica. Disputando os olhos curiosos deles andava também neste mesmo pátio o enorme cão São Bernardo “Barry”. Esporadicamente as crianças se divertiamgalopando sobre ele. Mas, em um belo dia de 1926, narra este texto, os irmãosFlusser viram Barry, que brincava com um dos funcionários, repentinamente virar-se.Ele atacou este funcionário que caiu no chão e um jorro de sangue ficou a escorrer desua perna, que Barry não queria mais largar. Flusser narra esta história como umaespécie de  Denkbild  benjaminiano, ou seja, como uma pequena imagem quecondensa um aspecto importante de sua experiência de vida. Este incidente ensinou aele que pode haver algo como “uma metamorfose repentina do bem em uma brutalagressão” (Flusser 1995: 10). Este episódio de 1926 ele conecta — em uma espéciede ponte metafórica — com a virada ocorrida na sua vida e na dos milhares de judeusde Praga em 1939 graças à “repentina mudança de atmosfera com a ocupação nazista.Aos meus olhos”, escreveu Flusser, “Praga é como um cão São Bernardo Barry” 1 Este texto é uma versão da palestra apresentada no Simpósio Internacional “A terceira margem: VilémFlusser und Brasilien. Kontexte – Migration – Übersetzungen/ Vilém Flusser e o Brasil. Migração – Contextos – Traduções”, realizado entre os dias 12 e 14 de outubro de 2006. Este evento foi organizado pelo Fachbereich Angewandte Sprach- und Kulturwissenschaft, Johannes Gutenberg Universität Mainze teve lugar na cidade de Germersheim, Alemanha.  Tradução em Revista , 2010/02, p. 01-19  2(Flusser 1995: 11). A virada que ele testemunhara com seu cão já o preparara paraesta outra terrível virada.Mas se Flusser afirma que desde então, ou seja, dos seus 6 anos de idade, elenão gostou mais de pontes, por outro lado ele não deixou de admirar uma ponte em particular, também localizada em Praga, a saber, a famosa Ponte de Carlos. Em seuensaio sobre “Praga, a cidade de Kafka” ele destacou várias analogias ou afinidadeseletivas entre a geografia física e psicológica de Praga e o universo das obraskafkianas. Uma peça fundamental nesta geografia é justamente esta ponte, que édescrita como “um elo impossível, mas realizado, entre Castelo e igreja, entre montee vale, entre o rei e o burguês, entre a soberba e a humildade, entre a rua dosalquimistas e a universidade, entre o céu e a terra, entre o ‘Castelo’ e a aldeia deKafka” (Flusser 2002: 64). Praga é marcada por esta imponente e delicada ponte, justamente porque é um espaço de tensões e campos de força. Esta cidade viveria desua própria dissolução. Flusser a descreve como uma cidade “situada nas fronteiras”(Flusser 2002: 65). Kafka seria um “pontífice”, ou seja, segundo Flusser, um“construtor de pontes impossíveis”. Nele percebemos a “posição flutuante e duvidosado praguense com relação a sua ‘nacionalidade’”, que se explicita sobretudo nosmomentos em que esta cidade foi ocupada. O triângulo cultural entre o alemão, otcheco e o judeu ditava a característica desta cidade como campo de passagem entrefronteiras. Kafka também transitava, como Praga, entre o Gótico e o Barroco, entre oocidente e o oriente europeus, e sua língua era simplesmente “o próprio alemão praguense”. (Flusser 2002: 67) Mas Flusser no seu apanhado das pontes que marcama obra de Kafka e no seu paralelo com a Praga da ponte de Carlos, tambémdesemboca, inexoravelmente, na virada, na metamorfose repentina, ou seja, na“mordida de Barry”. Ele recorda que Praga, que era a unidade destes mundos esobretudo destas três culturas — a alemã, a tcheca e a judaica —, tornou-seinteiramente outra com a eliminação dos seus judeus (Flusser 2002: 65). O“pontífice” Kafka teria conseguido ainda congelar e passar adiante, nas imagens desua obra, uma cultura que foi extinta. As metamorfoses que ele narrou, aprendemos poucos anos após a sua morte, eram antevisões de metamorfoses muito maisterroríficas do que ele pudera imaginar.  Tradução em Revista , 2010/02, p. 01-19  3 Neste texto eu gostaria de me deter em alguns aspectos da obra de Flusser que se relacionam com esta virada na sua história, na história de Praga e na daEuropa. Minha proposta é tentar indicar na obra deste pensador as marcas destametamorfose, mas também deste verdadeiro culto da “ponte”. O “pontificado” deFlusser se estende sobre a linguagem. Mas como, para ele, língua é realidade, este pontificado é uma tentativa de (re)construir pontes após o abalo sísmico provocado pelo nazismo. Suas pontes são tanto internas, sentimentais, tentativas de diálogo coma sua cultura perdida, como também uma resposta ao enlouquecimento da língua, quese tornara monolíngüe e deste modo bloqueou abruptamente e com violência acirculação entre as línguas e visões de mundo que caracterizavam o seu universo.Flusser, o grande comunicólogo, é antes de mais nada um tradutor, Über-Setzer  , eteórico da tradução, um analista e projetista de “pontes”. Ele cultiva a plurilínguacomo resposta ao choque da monolíngua exterminacionista, mas também, antes detudo, como um modo de manter laços, pontes, com a sua Praga, que permaneceu uma matriz de seu pensamento . Ele foi um dos pensadores que no século XX melhor souberam extrair forças da catástrofe. Sua reflexão sobre a cultura, que mostrareiaqui, ainda que brevemente, é na verdade uma tentativa de “virada do punhal” que oexpulsou da Europa e aniquilou a sua família. Flusser nesta virada desconstróiincessantemente o “ovo da serpente” que ele localiza em uma concepçãoontologizante de identidade. Sua posição de exilado, sua experiência de ter que viver radicalmente um corte com sua “srcem”, não pode ser esquecida quando lemos suaobra. Minha tese, resumidamente, é que esta experiência construiu dentro de Flusser um espaço  privilegiado, lançou-o como que sobre uma  ponte que atravessa nossacultura, de onde Flusser desfrutou de uma visão  sui generis , desestabilizadora, dasociedade. Esquematicamente apontarei em seguida dois importantes aspectos de suaobra relacionados com a sua situação de exilado: a) primeiro veremos a questão dasua paradoxal “exemplaridade” no contexto do século XX. Trata-se de tentar pensar sua posição de exilado e de judeu como representante de uma era marcada pelascatástrofes. Aqui veremos como certos aspectos da sua teoria da cultura serelacionam com este projeto que denomino, inspirado pelo próprio Flusser, comosendo um  pontificado , no sentido de um projeto de construção de pontes. b) Em umsegundo passo veremos um aspecto específico da obra de Flusser, a saber, sua leitura  Tradução em Revista , 2010/02, p. 01-19  4do Brasil, como parte deste seu projeto. Aqui a sua reflexão sobre a migração e oexílio recebe uma nova luz a partir desta experiência de 32 anos de engajamento emuma outra cultura e língua. 2. Ser Judeu: Bodenlos e Heimatlos Ruth Klüger em seu relato autobiográfico weiter leben, que narra como elasobreviveu à Shoah, utiliza uma metáfora que não nos surpreende a esta altura: suanarrativa funcionaria como uma tentativa de ligar os pilares de uma ponte ruída, ouseja, os pontos de sua própria vida que ficaram ilhados pela destruição da guerra.Flusser, portanto, fez parte de uma equipe de construtores de pontes neste século deextermínios e guerras. Como outros pensadores exilados e sobreviventes da perseguição, ele desenvolveu seus teoremas em diálogo com a sua época. Nesta partede minha reflexão gostaria de apresentar alguns aspectos da sua teoria da judeidade edos conceitos correlatos de  Heimatlosigkeit  (“apatricidade”) e de  Bodenlosigkeit  (falta de fundamento). A idéia é localizar um pouco esses conceitos dentro do panorama intelectual da segunda metade do século XX.A judeidade de Flusser, tal como podemos ler em suas idéias acerca destaquestão na sua obra, foi antes de mais nada pensada a partir do fenômeno culturalúnico que era a cidade de Praga. Como filho de um professor universitário“completamente agnóstico, ainda que interessado ativamente no judaísmo” (Flusser 1995: 14), Flusser se apresenta como um judeu assimilado, não-ortodoxo e não-sionista. Em Praga sentia a questão da identificação nacional como algo “arcaico esecundário” (Flusser 1992: 16). É claro que ele escreve isto de  sua perspectiva de judeu (impermeável aos nacionalismos germânico ou tcheco) e anti-sionista. Para ele,em Praga era-se “internacionalista de nascimento (e não ideologicamente), pois as pessoas sentiam na própria existência o ridículo de se fazer diferenças claras entre os povos.” (Flusser 1992: 16) O sionismo ele descartava, pois via nele um nacionalismo,uma reação ao anti-semitismo e ao nazismo e porque atribuía ao judaísmo um papel“diametralmente oposto ao que o judaísmo desempenhava em Praga, a saber, ser   ponte entre os povos” (Flusser 1992: 17; eu grifo).Ser judeu, para Flusser, portanto, não significava de modo algum seencastelar em uma cultura fechada. Muito pelo contrário, a judeidade para ele era
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