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Nas Tramas Do Contemporâneo - Fetichismos Visuais e Metrópole Comunicacional

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Obra-fetiche, obra que expõe e desnuda os fetichismos contemporâneos – donde se destacam as imagens produzidas digitalmente e que provocam a indistinção material/imaterial, corpos e mercadorias, corpos e coisas, orgânico e inorgânico - e com isso impele o expectador a se confrontar com eles; obra que provoca esse mesmo expect-ator, com todas as suas possibilidades afetivascognitivas- sensitivas, a refinar o olhar para ler/ouvir/ sentir seus apelos e a ferida que expõe a própria contemporaneidade e seus signos imagéticos. Rasgo também é produzido pela obra
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  283 Psicologia & Sociedade; 21 (2): 283-284, 2009 NAS TRAMAS DO CONTEMPORÂNEO: FETICHISMOS VISUAIS E METRÓPOLE COMUNICACIONAL Andréa Vieira Zanella Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil  O rasgo na parede azulejada expõe as entranhas da coisa morta que se revela viva. O rasgo é um atrator    que captura o olhar, ouvir, sentir, enm, mobiliza todo o corpo do observador que se estranha com a visão sen -sação das entranhas a mexerem com as suas próprias. Obra viva, bodycorpse  que impele o corpo de quem olha “a elaborar novos sistemas perceptivos, novas sensorialidades, explorando as zonas-mortas entre o que é percebido ou, de todo modo, já visto e o que está surgindo” (Canevacci, 2008, p.31). A lisura do azulejo esconde a innidade inquieta e latejante de sua carne vermelha escarlate a exalar odores vários, difusos, revelados com o rasgo irregular que xa o olho de quem olha e o provoca como múltiplo, mutável, mutante. Obra de arte que desloca e promove deslocamentos, que revela/produz uma coisa vivente e, nesse movimento, concebe/movimenta o vivente-coisa, numa provocação ao dualismo coisa-pessoa/  pessoa-coisa característico da modernidade e que com as entranhas do azulejo se vê estranhado. Obra-fetiche, obra que expõe e desnuda os  fetichis-mos contemporâneos  – donde se destacam as imagens  produzidas digitalmente e que provocam a indistinção material/imaterial, corpos e mercadorias, corpos e coisas, orgânico e inorgânico - e com isso impele o expectador a se confrontar com eles; obra que provoca esse mesmo expect-ator  , com todas as suas possibilidades afetivas- cognitivas-sensitivas, a renar o olhar para ler/ouvir/sentir seus apelos e a ferida que expõe a própria con -temporaneidade e seus signos imagéticos.Rasgo também é produzido pela obra de Mássimo Canevacci (2008), Fetichismos Visuais: corpos erópticos e metrópole comunicacional, que, de forma irregular, por caminhos oblíquos, direções (des)encontradas, provoca certo desassossego no leitor. A obra da artista brasileira Adriana Varejão, que integra a Tate Gallery Collection 1 , não está no livro, mas bem poderia, juntamente com as várias peças publicitárias, imagens de obras de arte visual, de obras arquitetônicas, fotograas de citadinos  glocais , relatos de obras cinematográcas e escritos vários que compõem a matéria sobre a qual as reexões sobre os fetichismos contemporâneos são tecidas. Trata-se de um livro complexo que problematiza os uxos comunicacionais produzidos nos interstícios das cidades e que as transformam em metrópole comu -nicacional, espaço-cenário para a produção-dissemina- ção-apropriação de novos fetichismos que instituem,  por sua vez, novos corpos, novas subjetividades. Livro que se caracteriza metodologicamente, como arma o autor, por uma aproximação polifônica marcada por uma lógica irregular às mercadorias-fetiches contem-  porâneos que movem as coisas para transformá-las em sujeitos sexuados. O autor aproxima-se desses fetiches, consome-os e aparentemente se deixa consumir visando, via interpretação-destruição de seus apelos, contribuir  para dissolver a reicação contemporânea. A metrópole comunicacional e as corporeidades a ela interligadas são eleitas por Canevacci como contexto etnográco para a pesquisa que se inspira, fundamentalmente, na Obra das Passagens, de Walter Benjamin, e o intenso debate travado entre este autor e Theodor Adorno, por meio de correspondências, sobre música, cinema (considerados facticidades comuni-cacionais, entre várias outras) e a reprodutibilidade técnica da obra de arte, fonte de reicação para Adorno e de liberação para Benjamin. O conceito de  facticidade se destaca porque “uni - ca aquele universo (‘feito’) de coisas-objetos-merca - dorias e de corpos-edifícios-metrópoles que, em plena modernidade, se diferenciava nitidamente, enquanto na percepção reexiva dos dois amigos já começava a se fragmentar, se atrair e reunir em constelações de movimento aparentemente lento, um movimento zero,   cujos atratores estelares conguram o desenho dos fetichismos visuais” (Canevacci, 2008, p.19).O debate entre Adorno e Benjamin, por sua vez, exprime a ruptura desses dois autores em relação a onipresença do fetichismo nas mercadorias produzidas nas fábricas, tema caro ao marxismo, que para ambos se estende às facticidades comunicacionais. Ao apresentar esse debate, capítulo que por si só justica a leitura do livro, Canevacci problematiza a temática do fetichismo e suas condições contemporâneas, bem como a trans -formação das cidades em metrópoles comunicacionais. 1  Imagem disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/_BXKxvhmAAJg/R9_p_TEEpCI/AAAAAAAAEyE/qrlEd4gHwqE/s400/ AV,+Green+Tilework+in+Live+Flesh,+2000,+mixed+media+on+canvas.jpg>.  284 Zanella, A. V. “Nas tramas do contemporâneo: fetichismos visuais e metrópole comunicacional” Essa transformação é anunciada por Walter Benjamin em sua análise das  passages  parisienses, “galerias nas quais nascem os grandes magazines, a fotograa e a  plena modernidade, composta pelo consumo e pela comunicação” (Canevacci, 2008, p.278).  Nos grandes magazines as mercadorias que saem das fábricas com determinado valor adquirem muitos outros, valores esses que se caracterizam como uma trama de fetiches comunicacionais. Canevacci interpreta do seguinte modo a importância das  passages : “As  passages   não contém dialética nem oposições dualistas, não são lu -gares de produção nem movem as classes: são um extra- ordinário espaço da mudança, que contém os traços mais signicativos de uma nova modernidade, caracterizada não mais pelo trabalho, mas pelo consumo; não pelos trabalhadores, mas pelos clientes; não pela necessidade de se reproduzir, mas pelo desejo de se produzir. Com as  passages , não se vive mais nas cidades e se está para entrar nas metrópoles” (Canevacci, 2008, p.278).À problematização do conceito de fetichismo,  por sua vez, o autor dedica um capítulo em que analisa o modo como este é denido pela matriz colonialis -ta, pela teoria marxista e pela psicanálise freudiana. Ressaltando e problematizando aspectos dessas  perspectivas que permanecem atuais e os que foram superados pelo movimento complexo das produções visuais contemporâneas, Canevacci destaca como suas características: “Um fetiche que soma a sacralidade do deus-objeto, o estranhamento da mercadoria-valor, a  perversão do corpo sexuado. Este é o valor acrescido e o seu poder. Não é o poder de Medusa, que volta como mito petricado em marcas, mas a potência de um fetichismo pulsante que leva a estraticar e mistu -rar novamente o sagrado, a mercadoria, o eros dentro dos corpos de coisas . Sacralidade, estranhamento,  perversão transguram as coisas mortas em sujeitos  pulsantes. E mais ainda, acrescentam alguma coisa que antes não existia: uma empática facticidade entre sujeito e objeto” (Canevacci, 2008, p.279). Relações entre as reexões apresentadas por Cane - vacci e as temáticas que interessam à psicologia social, de certa forma presentes em todo o texto, demandam do leitor relativo esforço para evidenciá-las nos interstícios do debate em que a comunicação visual contemporânea e seus variados apelos, a produzirem alienação e rei - cação, são dissolvidos pela intensa análise que o autor  promove a partir de algumas imagens/fetiches. Mas essas relações são possíveis e necessárias,  posto a empática facticidade entre sujeito e objeto, má- xima expressão desses fechismos visuais que promovem alienação e identicação. Anal, se concebemos a cons -tituição do sujeito como processo de apropriação dos signos em suas signicações, em um intenso, dialógico e polifônico processo de produção de sentidos, é preciso  perscrutar os signos atuais, a realidade imagética que interpela a todos e que institui modos de ser consoantes com as características do contexto em que se vive. Referência Bibliográca Canevacci, M. (2008).  Fetichismos visuais: corpos erópticos e metrópole comunicacional  . São Paulo: Ateliê Editorial.  Andréa Vieira Zanella  é professora associada da Universidade Federal de Santa Catarina. Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (1986), mestrado (1992) e doutorado (1997) em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Realizou estudos pós-doutorais na Università Degli Studi di Roma La Sapienza, em 2009. É Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Email: azanella@cfh.ufsc.br  Nas tramas do contemporâneo: fetichismos visuais e metrópole comunicacional Andréa Vieira ZanellaRecebido: 21/02/2009Aceito: 28/03/2009
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