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», V* *+S' % * : *+9 ' % * A ^ tt-t-tv ^..tt*^. r Ie ne fay rien sans Gayeté (Montaigne, Des livres) 4 \* m ExLibris * ' lí ^ José Mindlin **M *.»**v '. S V J»- * - è».» r %» f \ timtua W» NORTE % PRIMEIRO LIVRC 0 CABELLEIRA HISTORIA PERNAMBUCANA. POK fjranhlin toora. RIO DE JANEIRO -Í Ü ? a a a a tpraii & raafüíueiai I 876. J*- S. LITTERATURA DO NORTE O CABELLEIRA LITTERATÜRA DO NORTE PRIMEIRO LIVRO 0 CABELLEIRA HISTORIA PERNAMBUCANA POR cjranwin Satiura. RIO DE JANEIRO TYPOGRAPHIA NACIONAL Meu amigo, A casa, onde moro, está situada ao lado de uma rua de bambus, em um dos cantinhos mais amenos da bacia de Botafogo. Vejo daqui uma grande parte da bahia, os morros circumstantes, cravando seus cumes nas nuvens, o céo de opalo, o mar de anil. Infelizmente este bello espectadulo não é immutavel. De súbito o céo se torna brusco, e só descubro cabeços fumegantes em torno de mim ; ribomba o trovão nos pincaros alcantilados; a chuva fustiga as palmeiras e casuarinas; a ventania brame no bambuzal; a casa estala. Parece que tudo vai derruir-se. Estas tormentas duram horas, noites, dias inteiros, e reproduzem-se com mais ou menos freqüência. Quando ellas têm passado de todo, o céo mostra-se mais puro e bello, o mar mais azul, as arvores mais verdes; a viração tom mais doçura, as flores mais deliciosos aromas. Pela face das pedreiras correm listrões d'agua prateada, que rcíloctem a luz do sol, formando brilhantes matizes. Coberta de frescas louçanias, a natureza sorri com suave gentileza depois de haver esbravejado e chorado como uma criança. 6 UTTl-RATTKA E' tempo de cumprir a promessa oxtorquida pela amizade, que não attendeu ás mais legitimas escusas. Essa natureza brilhante e movei estava a cada instante convidando o meu desanimo a romper o silencio a que vivo recolhido desde que cheguei do extremo-norte do império. Depois de cerca de dous annos de hesitações, dispuz-mo emfim a escrever estas pallidas linhas notas dissonantes de uma musa solitária, que no retiro, onde se refugiou com os desenganos da vida, não pôde esquecer-se da pátria, anjo das suas esperanças e das suas tristezas. Tive porém que melhor seria leres umas centenas de paginas na estampa, do que traduzires um volumoso infolio, inçado de tantas emendas e entrelinhas que a mim mesmo custa ás vezes decifral-as, pela razão de que tudo aqui se escreveu sem ordem,' sem arte, sem se attender a ideal, por aproveitar momentos vagos e incertos de uma penna que pertence ao estado e á família. Por isso, em lugar de uma carta receberás nessa encantadora Genebra, onde te delicias com a memória de Rousseau, Stael, Voltaire, Calvino astros immortaes, que rutilarão perpetuamente no Armamento da civilisação, um livro hoje, outro talvez amanhã, e alguns mais suecessivãmente, até que me tenha libertado da obrigação, que me impuzeste, conforme o permittirem as minhas forças diminuídas pelo meu afastamento das cousas litterarias de nossa terra. Inicio esta serie de composições litterarias, para não dizer estudos históricos, com o Cabelleira, que pertence a Pernambuco, objecto de legitimo orgulho para ti, e de profunda admiração para todos os que têm a fortuna de conhecer essa refulgente estrella da constellação brazileira. Taes estudos, meu amigo, não se limitarão somente aos typos notáveis e aos costumes da grande e gloriosa província, onde tiveste o berço. Pará e Amazonas, que não me são de todo desconhecidas; Ceará, torrão do meu nascimento; todo o norte emfim, DO NORTE. 7 si Deus me ajudar, virá a figurar nestes escriptos, que não se destinam a alcançar outro ílm senão mostrar aos que não a conhecem, ou-por falso juízo a desprezam, a rica mina das tradições e chronicas das nossas províncias septentrionaes. Depois de alguns mezes de ausência, tornei a ver o Recife, esplendida visão de teus sonhos nostálgicos. Lamento que, havendo sido transportado muito novo ainda ao velho mundo, não guardes dessa visão a menor lembrança, fugitiva embora. Genebra com o Mont-blanc coberto de' neves e gêlos eternos; o lago immenso, que a um sem-numero de poetas tem inspirado maviosos e immortaes cantos; o Rhodano que, ao dizer de um viajante nacional, foge apressado, resmungando com voz medonha em procura de hospitalidade no Mediterrâneo», não pôde ter a belleza dessa elegante e risonha cidade, que surge d'entre mangues verdejantes, águas límpidas, pontes soberbas, e se estende por sobre vasta planície, obrigando os matos a se afastarem de dia em dia ao occidente para ter espaço onde alongue de improviso suas novas ruas, suas estradas, seus trilhos, testemunhos de sua prosperidade material, commercial e agrícola; onde funde novas escolas e erija novos templos, testemunhos de sua civilisação e grandeza moral. Vi o Pará, e adivinhei-lhe as incalculáveis riquezas ora occultas no regaço de um futuro que, si não annunciou ainda a época precisa de sua realização, não se demorará muito, segundo se infere do que apresenta, em traduzir-se na mais brilhante realidade. E que direi do Amazonas, incomprehensivel grandeza, que tem a índole da immensidade e a feição do escândalo? Não ha prodígio que se possacomparar com aquelle no descoberto. Não creio que Rousseau fosse capaz de phantaziar semelhante, ainda que levasse toda a vida a imaginar, elle o philosopho sonhador que com suas idéas revolucionou o mundo; o homem créa a grandeza ideal, a grandeza phy- 8 UTTERATURA sira porém só Deus a concebe e executa. Stacl em vão tentaria descrever esse reino encantado como descreveu Itália em sua imperecedoura Corinna em que o estudo dos monumentos e do passado não desdiz do coração, monumento de todos os tempos. Entrando alli, pareceu-me entrar em um templo phantastico e sem proporções. E' natural o phenomeno : sempre que nos achamos diante das obras primas da creação, secreto instineto nos adverte que estamos na presença do Deus. A admiração tem então a solemnidade de um recolhimento e de uma homenagem. As impressões passam dos sentidos ao fundo da alma onde vão repetir-se com maior intensidade. Todas as nossas faculdades a intelligencia, a imaginação, a própria vontade, deixam-se dominar de uma como volúpia que não é sensual, mas deleitosa, e grande como é talvez o êxtase. Ainda quando tenhamos o espirito cansado dos erros e injustiças dos homens, nós o sentiremos levantar-se immcdiatamente cheio de vida diante da representação enorme, como si elle se achasse em sua integridade virglnal. E' o effeito do assombro que percorre, como fluido, o nosso organismo, despertando em nós abruptas sensações que nunca experimentámos, e que são para nós verdadeiros phenomenos do mundo physiologico. Águas immensas serviam de lageamento ao magestoso templo, que tinha por abobada o céo sem limites. A' visão physica escapavam as columnas e paredes dessa cathedralmundo, as quaes a minha imaginação fora collocar além dos horizontes invisíveis do Atlântico. Do lado do norte quebravam a monotonia da superfície envoltos nos vapores matutinos uns como rudimentos gigantescos de arcadas colossaes. Em outras quaesquer condições cósmicas esses rudimentos apresentar-se-hiam á minha vista como grandiosas ruínas; alli não; o que se afigura ao espirito de quem os observa, é uma cousa índizivel; DO NORTE. 9 aflgura-se que essas arcadas estão em começo de construcção e se destinam a romper o céo, porque no meio daquelle sumptuoso impossível poder-se-ha dizer que nenhum átomo tem o direito de se deixar destruir; quando tudo não exista alli ab initio, quando tudo não tenha alli uma vida que não teve principio e que não ha de ter fim, só o que resta ao corpo é nascer, agigantar-se, eternizar-se na matéria, que não acabará sinão no fim dos tempos. O que eu via e acabo de apontar não era outra cousa que a região amazonia que começava a desenhar-se risonha, azulada, esplendida. Eram ilhas sem numero, umas de comedidas dimensões, outras de descommunal amplitude, todas ellas multiformes, marchetando aqui as águas, bordando alli o continente coberto de uma espessa crôsta de verdura. Quem não entrou ainda nesse mundo novo onde ao homem que pela primeira vez nelle penetra, se afigura não ter sido precedido por um único sequer dos seus semelhantes; onde ha léguas e léguas que ainda não foram pisadas por homem civilizado, e onde ha rios que só a canoa do indio tem fendido, não pôde formar idéa dessa esplendida maravilha. Quando me achei, não em face mas no seio daquella natureza (porque em breve me vi cercado de ilhas, das quaes algumas podem comparar-se a continentes, que em todas as direcções iam ficando ou apparecendo), natureza a que a minha imaginação tinha dado fôrmas incríveis, filhas da visão intima, reconheci só então quanto em seus vãos arroubos me havia a phantasia deixado áquem da realidade. Nada do que fui descobrindo conformava com as paysagens que eu traçara e colorira na mente não obstante as proporções gigantescas, as linhas correctas, as cores variadas, os matizes estupendos com que eu as tinha feito surgir de minha palheta. Pallidos e somenos hão de ser sempre diante daquella realidade a modo de fortuita os sonhos do maior imaginar. 10 LITTERATURA Muito se ha escripto do Pará e Amazonas desde que foram descobertos até nossos dias. Que valem porém todos os «scriptos e narrações de viagem a semelhante respeito? iquasi nada. O que elles nos põem diante dos olhos é o traço hirto, c não o músculo vivo e hercúleo ; é a ruga, e não o sorriso; é a penumbra, e não o astro; o que elles nos olíerecem são fôrmas tesas e seccas em lugar dos contornos bnandos, delicados e flexíveis dos iminensos panoramas e transparentes perspectivas dessas regiõ2s paradisíacas. Como pintar as myriadas de ilhas, rios, furos, igarapés, que se mostram aos olhos do viajante desde a foz do grande rio, desde a confluência deste com os outros rios, que não têm conta, até suas nascenças, que durante muitos annos ainda hão de ser quasi inteiramente desconhecidas? Como pintar taes immensidades, si vencer um desses rios, um desses furos, um desses igarapés, deixar atrás ou de lado uma, dez, cem ilhas, é o mesmo que penetrar e-n novos igarapés, novos furos, novos rios, contornar novas ilhas? Nem sempre porém a natureza sorri, ou protege, ou abraça ; ás vezes ella encolerisa-se e, trocando os afagos da mãi carinhosa com as asperezas da madrasta desamoravel, repelle o homem por mil fôrmas, e o impelle para mil perigos. A cólera, o açoite, a repulsa, o impulso, o puro franzir do sobr'oiho da madrasta irritada são terríveis manifestações : é a tempestade que afunda mil vidas o homem, a cobra, a onça, a ave infeliz que passava trinando venturas; é a correnteza que desaggrega, desfaz ilhas, e as apaga da superfície das águas, e arranca o cedro, a palmeira, os quacs vão arrebatados no turbilhão, que os engole vestidos de virente folhagem para os vomitar escalavrados, nús, despedaçados, sórdidos. A pedra não resiste. A revolução arrasta-a com rapidez inconceptivel, e a vai levar em um momento a fundos abys- DO NORTE. 11 mos, que são outros tantos domicílios da vertigem e da morte. Com a pedra desappareceria a montanha, si tivesse a imprudência de ir surgir á frente, ou no meio daquellas impetuosas águas, que alagam, constringem, cavam, desmantelam, pulverizam praias, ribas, fragas e continentes. Que não seria deste mundo pensei eu, descendo das eminências da contemplação ás planiceis do positivismo, si nestas margens se sentassem cidades; si a agricultura liberalizasse nestas planícies os seus thesouros ; si as fabricas enchessem os ares com seu fumo, e nelles repercutisse o ruido das suas machinas? Desta belleza, ora a modo de estatica, ora violenta, que fontes de rendas não haviam de rebentar? Mobilizados os capitães e o credito; animados os mercados agrícolas, industriaes, commerciaes, artísticos, veríamos aqui a cada passo uma Manchester ou uma Nova- York. A praça, o armazém, o entreposto occupariam a margem, hoje nüa e solitária, o cômoro sem vida e sem promessa ; o arado percorreria a região que de presente pertence á floresta escusa. O estado natural, espancado pelas con entes da immigração espontânea que lhe viessem disputar os domínios improductivos para os converter cm magníficos empórios, ter-se-hia ido refugiar nos sertões remotos d'onde em breve seria novamente desalojado. Uma face nova teria vindo succeder ao brilhante e magestoso painel da virgem natureza. Não se mostrariam mais aqui as tendas negras da fome e da nudez. O trabalho, o capital, a economia, a fartura, a riqueza, agentes indispensáveis da civilização e grandeza dos povos, teriam lugar eminente nesta immensidade onde vemos unicamente águas, ilhas, planícies, seringaes sem fim. Mas por onde ando eu, meu amigo? Em que alturas vou divagando nas azas da phantasia? Venhamos ao assumpto desta carta. No Cabelleira offereço-te um tímido ensaio do romance histórico, segundo eu entendo este gênero da litteratura. d2 UTTKRATURA A' critica pernambucana, mais do que ú outra qualquer, cabe dizer i o meu desejo não foi illudido; e a ella, seja qual fòr a sua sentença, curvarei a cabeça sem replicar. As lettras têm, como a política, um certo caracter geographico; mais no norte, porém, do que no sul abundam os elementos para a formação de uma litteratura propriamente brazileira, filha da terra. A razão é obvia : o norte ainda não foi invadido como está sendo o sul de dia em dia pelo estrangeiro. Afeição primitiva, unicamente modificada pela cultura que as raças, as índoles, e os costumes recebem dos tempos ou do progresso, póde-st affirmar que ainda se conserva alli cm sua pureza, em sua genuína expressão. Por infelicidade do norte, porém, d'entre os muitos filhos seus que figuram com grande brilho nas lettras pátrias, poucos têm seriamente cuidado de construir o edifício litterario dessa parte do império que, por sua natureza magniflcente e primorosa, por sua historia tão rica de feitos heróicos, por seus usos, tradições e poesia popular ha de ter cedo ou tarde uma bibliotheca especialmente sua. Esta pouquidade de architectos faz-se notar com especialidade no romance, gênero em que o norte, a meu ver, pôde entretanto figurar com brilho e bizarria inexcedivsl. Esta verdade dispensa demonstração. Quem não sabe que na historia conta elle J. F. Lisboa, Baena, Abreu e Lima, Vieira da Silva, Henriques Leal, Muniz Tavares, A. J. de Mello, Fernandes Gama, e muitos outros que podem bem competir com Varnhagem, Pereira da Silva, e Fernandes Pinheiro; que o primeiro philologo brazileiro, Sotero dos Reis, é nortista; que é nortista Gonçalves Dias, a mais poderosa e inspirada musa de nossa terra; e que igualmente o são Tenreiro Aranha, Odorico Mendes, Franco de Sá, Almeida Braga, José Coriolano, Cruz Cordeiro, Ferreira Barreto, Maciel Monteiro, Bandeira de Mello, Torres Bandeira, que valem bem Magalhães, A. de Azevedo, Varella, Porto DO NORTE. 13 Alegre, Casimiro de Abreu, Cardoso de Menezes, Teixeira de Mello? No romance, porém, já não é assim. O sul campêa sem émulo nesta arena, onde têm colhido notáveis louros: Macedo, o observador gracioso dos costumes da cidade; Bernardo Guimarães, o desenhista fiel dos usos rústicos ; Machado de Assis, cultor estudioso do gênero que foi vasto campo de glorias para Balzac; Taunay que se particulariza pela fluencia, e pelo faceto da narrativa ; Almeidinha, que a todos estes se avantajou na correcção dos desenhos, posto houvesse deixado um só quadro, um só painel, quadro brilhante, painel immenso, em que havida, graça, e colorido nativo. Estes talentos, além de outros que me não lembram de momento, nâo têm, ao menos por agora, competidores no norte, onde aliás não ha falta de talentos de igual esphera. Não me é licito esquecer aqui, ainda que se trata do romance do sul, um engenho de primeira grandeza, que, com ser do norte, tem concorrido com suas mais importantes primicias para a formação da litteratura austral. Quero referir-me ao exm. sr. conselheiro José Martiniano de Alencar, a quem já tive occasião de fazer justiça nas minhas conhecidas Cartas-a-Cincinnato. Quando, pois, está o sul em tão favoráveis condições, que até conta entre os primeiros luminares das suas lettras este distincto cearense, tem os escriptores do norte que verdadeiramente estimam seu torrão, o dever de levantar ainda com luta e esforço os nobres foros dessa grande região, exhumar seus typos legendários, fazer conhecidos seus costumes, suas lendas, sua poesia máscula, nova, vivida e louça tão ignorada no próprio templo onde se sagram as reputações, assim litterarias, como políticas, que se enviam ás províncias. Não vai nisto, meu amigo, um baixo sentimento de rivalidade que não aninho em meu coração brazileiro. Proclamo 14 LITTERATURA DO NORTE. uma verdade irrecusável. Norte e sul são irmãos, mas são dous. Cada um ha de ter uma litteratura sua, porque o gênio de um não se confunde com o do outro. Cada um tem suas aspirações, seus interesses, e ha de ter, si já não tem sua política. Emfim não posso dizer tudo, e reservarei o desenvolvimento, que taes idéas exigem, para a occasião em que te enviar o segundo livro desta série, o qual talvez venha ainda este anno, á luz da publicidade. Depois de haveres lido o Cabelleira, melhor me poderás entender a respeito da creação da litteratura septentrional, cujos moldes não podem ser, segundo me parece, os mesmos em que vai sendo vasada a litteratura austral que possuímos. Teu $wnmm anma. Rio-1876. O CABELLEIRA A historia de Pernambuco offerece-nos exemplos de heroísmo e grandeza moral que podem figurar nos fastos dos maiores povos da antigüidade sem desdoural-os. Não são estes os únicos exemplos que despertam nossa attenção sempre que estudamos o passado desta illustre província, berço tradicional da liberdade brazileira. Merecem-nos particular meditação, ao lado dos que ahi se mostram dignos da gratidão da pátria pelos. 16 O CABELLEIRA. nobres feitos com que amagnificaram, alguns vultos infelizes, em quem hoje veneraríamos talvez modelos de altas e varonis virtudes, si certas circumstancias de tempo e lugar, que decidem dos destinos das nações e até da humanidade, não pudessem desnaturar os homens, tornando-os açoites das gerações coévas e algozes de si mesmos. Entra neste numero o protogonista da presente narrativa, o qual se celebrizou na carreira do crime, menos por maldade natural, do que pela crassa ignorância que em seu tempo agrilhoava os bons instinctos e deixava soltas as paixões cannibaes. Autorizam-nos a formar este juízo do Cabelleira a tradição oral, os versos dos trovadores e algumas linhas da historia que trouxeram seu nome aos nossos dias envolto em urna grande lição. A' sua audácia e atrocidades deve seu renome este heróe legendário para o qual não achamos par nas chronicas provinciaes. Durante muitos annos, ouvindo suas mais ou suas aias cantarem as trovas commemorativas da vida e morte desse como Cid, ou Robin-Hood pernambucano, os meninos tomados depavor, adormecerammais depressa, do que si lhes contassem as proezas do lobishomem ou a historia do negro do surrão muito em voga entre o povo naquelles tempos. O CABELLEIRA. 17 Com a simplicidade irreprehensivel que é o primeiro ornamento das concepções do espirito popular, habilitam-nos esses trovadores a ajuizarmos do famoso valentão pela seguinte letra: Fecha a porta, gente, Cabelleira ahi vem, Matando mulheres, Meninos também. O Cabelleira chamava-se José Gomes, e era filho de um mameluco por nome Joaquim Gomes, sujeito de más entranhas, dado á pratica dos mais hediondos crimes. De parceria com um pardo de nome Theodosio que primou na astucia e nos inventos para se apossar do que lhe não pertencia, percorriam José e Joaquim o vasto perímetro da província em todas as direcções, deixando a sua passagem assignalada pelo roubo, pelo incêndio, pela carnificina. Um dia assentaram dar um assalto á própria villa do Recife. As populações do interior, em sua maioria destituídas de bens da fortuna, e então muito mais espalhadas do que actualmente, pouco tinham já com que cevar a voracidade dos três aventureiros a quem des
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