Documents

INTER16_009.pdf

Description
O USO DO FUTURO DO SUBJUNTIVO: VARIAÇÃO E FREQUÊNCIA Diana Liz Reis de Bittencourt1 RESUMO Este artigo tem como objetivo discutir o uso variável das formas irregulares de futuro do subjuntivo em português (ex.: tiver/ter, propuser/propor), através da análise de dados de entrevistas orais e de testes escritos, com falantes de Santa Catarina. Tendo como bases teóricas a sociolinguística e o funcionalismo, são analisados fatores sociais e funcionais na investigação do fenômeno. A discussão dos resu
Categories
Published
of 14
25
Categories
Published
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Similar Documents
Share
Transcript
  O USO DO FUTURO DO SUBJUNTIVO: VARIAÇÃOEFREQUÊNCIA INTERDISCIPLINAR Ano VII, V.16, jul-dez de 2012-ISSN 1980-8879 | p.117-130 Diana Liz Reis de Bittencourt 1 RESUMO Este artigo tem como objetivo discutir o uso variável das formas irregulares de futuro dosubjuntivo em português (ex.: tiver/ter, propuser/propor  ), através da análise de dados deentrevistas orais e de testes escritos, com falantes de Santa Catarina. Tendo como basesteóricas a sociolinguística e o funcionalismo, são analisados fatores sociais e funcionais nainvestigação do fenômeno. A discussão dos resultados mostra que os falantes apresentamum comportamento diferenciado na testagem escrita e na entrevista oral (sociolinguística)em relação ao uso das formas irregulares–o que é interpretado com base na frequênciade uso dos itenslexicais nas duas modalidades. Palavras-chave: futuro do subjuntivo; variação; regularização. ABSTRACT This paper aims to discuss the variable use of irregular forms of the future subjunctive inPortuguese (eg.: tiver/ter, propuser/propor)  , by analyzing samples from oral interview andfrom written tests, with speakers of Santa Catarina. On theoretical bases in sociolinguisticand functionalism, social and functional factors are analyzed in the phenomenoninvestigation. The discussion of the results shows the speakers have a different behavior inthe written test and in the oral (sociolinguistic) interview regarding the use of the irregularforms–which is interpreted on bases in the frequency of use of the lexical items in bothmodalities. Keywords: future subjunctive; variation; regularization. 1 Professora temporária na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestre e doutoranda em Linguística peloPrograma de Pós-graduação em Linguística da UFSC. Contato: diana.liz.reis@gmail.com  Diana Liz Reis De BittencourtT INTERDISCIPLINAR Ano VII, V.16, jul-dez de 2012-ISSN 1980-8879 | p.117-130 118 1.INTRODUÇÃO Este artigo trata do uso variável das formas irregulares de futuro do subjuntivono português do Brasil (PB), discutindo fatores sociais e hipóteses funcionais que buscamdescrever o uso dessa forma verbal, com base em dados de falantes de Santa Catarina.O uso variável das formas irregulares de futuro do subjuntivo no português éum fenômeno bem conhecido por estudiosos da língua portuguesa, ou mesmo porobservadores mais atentos (ex.: querer  por quiser  ; ter  por tiver; propor  por  propuser  ).Ademais, esseé um fenômenoestá até mesmo registrado emgramáticos tradicionais,geralmente com críticas negativas, como podemos ver a seguir: Não se confunda o Infinitivo Pessoal com Futuro do Subjuntivo, estes doistempos são análogos na forma, nos verbos regulares, sendo sempredesiguais se o verbo é irregular. Por falsa analogia o povo confundeinfinitivo pessoal com futuro do subjuntivo e vice-versa.(GÓIS, apud  MACEDO,1980, p. 23) O uso ‘confuso’do futuro do subjuntivo(segundo a prescrição gramatical)ocorre devido ao fato de muitoso equipararem com o infinitivo pessoal, jáqueas formasdos verbos regulares de futuro do subjuntivo e do infinitivo são idênticas, levandoalgunsfalantes a produzirem formas ‘regularizadas’, como em: “Se o banco reter  (Infinitivo) ocartão”/“Quando você ver  (Infinitivo) ele hoje” (no lugar de retiver  e vir  , respectivamente).Sobre a descrição dessefenômenona literatura,no âmbito da sociolinguísticadestacamos o trabalho deMacedo (1980) que mostroua existência de uma forte tendênciade‘regularização’das formasirregularesde futuro do subjuntivo por falantes do Rio deJaneiro.Seus resultados apontaram que cerca de 70% dos falantes ‘regularizaram’.Em face do exposto, este artigo tem como propósito discutir esse ‘processo deregularização’ das formas verbais irregulares de futuro do subjuntivo no PB, a partir daanálise deReis (2008)–que investigouo uso do futuro do subjuntivo emtestes escritosaplicados a estudantes do ensino fundamentalde Santa Catarina–, e principalmente dosresultados deReis (2010), que analisaesse processo de ‘regularização’ destacando o papelda frequência de uso, ou seja, investigando quais itens lexicais verbais no futuro dosubjuntivomais sofrem regularização, a partir dedados oraisde informantes de  Ouso do futuro do subjuntivo: variação e frequência INTERDISCIPLINAR Ano VII, V.16, jul-dez de 2012-ISSN 1980-8879 | p.117-130 119 Florianópolis (SC) deentrevistas sociolinguísticas do Banco Varsul 2 . Assim, éatravés dosresultados de Reis (2010) que discutimos como acontece, ou melhor, qual a realabrangência desse fenômeno de regularização das formas irregulares na língua portuguesa,posto que esse processo parece não alcançarmuito o uso das formas de futuro dosubjuntivo mais frequentes na língua, como por exemplo, os verbos dizer, for, quiser  ,verbos maisusados pelos falantes, atingindo principalmente os verbos de uso menosfrequente pelos falantes, ex.:  propuser, retiver, contiver  , entre outros.Visto isso,como estamos estudando a variação no uso de uma forma verbal (ofuturo do subjuntivo), é natural que tomemos como base teórica a sociolinguísticalaboviana, e passemos a vero fenômeno como uma forma verbal em uso variável noportuguês do Brasil (PB). Para a sociolinguística, a variação faz parte do própriofuncionamento do sistema linguístico, constituindo-se em requisito ou condição para aexistência do mesmo. E um de seus pressupostos básicos é o de que o uso variável segueuma regularidade, de maneira que o emprego aparentemente aleatório de formas variantesobedece a princípios que podem ser explicados e estabelecidos de maneira estável.Mais precisamente, assumimos neste trabalho uma perspectiva de interface sociofuncionalista, por entendermos que as formas variantes estão competindo nummesmo domínio funcional, e também por trazermos à discussão algumas ideiasfuncionalistas, como a hipótese da variação/mudança por analogia como justificativa parao comportamento do uso variável de formas irregulares em geral. A aproximação teóricaentre a sociolinguística e o funcionalismo nasce como algo naturalmente compatível emfunção de ambas as correntes preocuparem-se com o estudo da linguagem em uso  . 2. O FUTURO DO SUBJUNTIVO O futuro do subjuntivo, doravante também FS, é uma forma verbal compostapelo ‘tema’: radical (um morfema lexical que dá a significação permanente do verbo) mais 2 O banco de dados Varsul– Variação Linguística Urbana na Região Sul do Brasil   –é composto de amostras de fala das áreasurbanas de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. As entrevistas estão organizados segundo a localização, a idade, aescolaridade e o sexo dos informantes.  Diana Liz Reis De BittencourtT INTERDISCIPLINAR Ano VII, V.16, jul-dez de 2012-ISSN 1980-8879 | p.117-130 120 vogal temática; pela presença de um sufixo flexional modo-temporal; e pela presença deum sufixo flexional número-pessoal, de acordo com Junior ([1969] 2007, p. 104): Verbo cantar  Tema = Cant-(Rd) + a (VT)SMT = -r  (P1, P3, P4, P5) e- re  (P2, P6)SNP = P1 = Ø; P2 =-s; P3 = Ø; P4 =-mos; P5 =-des; P6 =-m Podemosmelhordefini-lo como um tempo/modo verbalque aparece em certasorações subordinadas, expressando basicamente uma situação/evento necessário para umaoutra situação futura, representada pelo verbo da oração principal, ocorrer. Em termos detemporalidade, recobre situações futuras em relação ao momento de fala, ou situaçõespresentes com projeção futura.Assim, a partir de uma visão funcionalista, vemos oconjunto, oração principal e subordinada, comouma construção sintática modalizada quetransmite a ideia do eventual, do possível, do desejado ou indesejado, enfim, do não-fato,ou melhor, das modalidades não-factuais conhecidas no funcionalismo, principalmente emGivón (1995; 2001), comomodalidade(s) irrealis. Os exemplos abaixo,extraídos do banco de dados Varsul e de gramáticasnormativas, podem ilustrar os principais orações subordinadas em que aparece o FS:  Orações adverbiais condicionais Se PUDER, voltarei. (CUNHA 1980)Se Deus me DER vida e saúde, eu não vou ficar, né? (Inf. FLN 16) 3  Orações adverbiais temporais Quando PUDER, passarei por aqui. (CUNHA & CINTRA 2001)Quando me APOSENTAR, viajar um pouco, não tem? (Inf. FLN 16)  Orações adjetivas (relativas): 3 Leia-se ‘informante de Florianópolis número 10’. A partir dessa referência, é possível que qualquer pesquisador visualize odado na entrevista do ‘informante 10’ de Florianópolis, nos arquivos do Varsul.
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks
SAVE OUR EARTH

We need your sign to support Project to invent "SMART AND CONTROLLABLE REFLECTIVE BALLOONS" to cover the Sun and Save Our Earth.

More details...

Sign Now!

We are very appreciated for your Prompt Action!

x