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História da Música POPULAR Brasileira

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Ricardo Cravo Albin MPB A provocação Photo: Mario Thompson da integração A extraordinária capacitação brasileira de incorporar, de deglutir, de ruminar as mais várias culturas – a meu ver, de resto, a contribuição mais original do Brasil para a história das civilizações , neste milênio – vai encontrar, justamente no nosso cancioneiro, seu espelho mais veemente, provocador e estimulante. Devo observar que as músicas populares de outros países como Alemanha, França, Portugal, Espanha, Rússia, It
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  22 Ricardo Cravo Albin Dorival Caymmi    P   h  o   t  o  :   M  a  r   i  o   T   h  o  m  p  s  o  n A extraordinária capacitação brasileira de incorporar,dedeglutir,de ruminar as mais várias culturas – a meu ver,deresto,a contribuição mais srcinal do Brasil para a história dascivilizações ,neste milênio – vai encontrar,justamente nonosso cancioneiro,seu espelho mais veemente,provocador eestimulante.Devo observar que as músicas populares de outros paísescomo Alemanha,França,Portugal,Espanha,Rússia,Itália,toda a Escandinávia e tantos outros (à exceção dos EstadosUnidos,onde o jazz se desenvolveu com vigor diferenciado)são muitíssimo mais discretas e – aí sim – avaliadas emmodesto patamar cultural.Por quê? Porque a elas faltam aslabaredas rejuvenescedoras tanto da miscigenação,quanto asde um país jovem.Não será apenas por incorporar a palavra popular que aMPB pode exibir,com tamanho luxo,sua melhor e maisnobre configuração:a interface da solidariedade que ela pro-põe.E – mais que isso – o que ela,concretamente,vem reali-zando ao longo deste último século.Mas,dirão alguns,não haverá exagero da parte de exege-tas apaixonados em atribuir a um conjunto de canções e artis-tas do povo tal nível de importância sócio-cultural ? Sim,atépoderia haver,se a esse conjunto que hoje tem o simpáticoapelido de MPB faltasse um dado revitalizador chamadomiscigenação.Pois sempre é útil lembrar-se que nossa música popular éfruto direto – e indissociável – do encontro interracial queculminou no país mulato que somos nós.A meu ver,a história da música popular brasileira nasce MPB A provocaçãoda integração    F  o   t  o  :   M  a  r   i  o   T   h  o  m  p  s  o  n  24 Cartola botas de seus maridos.Refiro-me à maestrina e compositoraChiquinha Gonzaga,filha de marechal do Imperador,queteve a coragem de abandonar um casamento e montar casaprópria onde ousava ensinar não só piano,mas até violão,con-siderado maldito.E cito também uma rara pioneira –damaculta (era cartunista e pintora),Nair de Teffé,(a RIAN),casa-da com o Presidente Marechal Hermes da Fonseca,que teveigualmente o topete de abrir o Palácio do Catete em 1912para saraus de MPB,onde pontificavam poetas e músicospopulares,como Catulo da Paixão Cearense e AnacletoMedeiros.Mesmo assim,os muitos sofrimentos impostos aos músi-cos e poetas do povo espraiavam-se pelas ruas das cidades doBrasil.Sofrimentos que – como me testemunharam pioneirosdo samba e do choro,como João da Bahiana,Pixinguinha,Donga e Heitor dos Prazeres – culminavam com o fato deserem presos nas ruas apenas pelo pecado de portarem umviolão,“coisa de capadócio,de desocupado,da negralhada”.Oude serem obrigados a entrar pela porta dos fundos do HotelCopacabana Palace (Rio) por serem músicos e “ainda porno exato momento em que,numa senzala negra qualquer,osíndios começam a acompanhar as mesmas palmas dos negroscativos e os colonizadores brancos se deixam penetrar pelamagia do cantarolar das negras de formas curvilíneas.Esseamálgama maturado sensual e lentamente,por mais de qua-tro séculos,daria uma resultante definida há cerca de cemanos,quando é criado,no Rio,o choro e quando surgem omaxixe,o frevo e o samba.Daí para cá,esses últimos cem anos,abertos tanto pelaAbolição da Escravatura (1888) quanto pela Proclamação daRepública (1889),assistiram à consolidação de uma revolu-ção cultural que nos redimiu:a dramática ascensão e formati-zação da civilização mulata no Brasil.E com ela,a consolida-ção de sua filha primogênita,a mais querida e a mais abran-gente,a MPB.A história desses cem anos é,também,a história dos pre-conceitos e dos narizes retorcidos da cultura oficial,encastela-da na burguesia e na aristocracia oligárquica.Duas exceções àregra geral do preconceito devem ser registradas,até porqueenvolvem duas mulheres,logo elas que viviam sob o jugo das    F  o   t  o  :   M  a  r   i  o   T   h  o  m  p  s  o  n  25 cima negros”,isso lá por volta dos anos 20,mesmo depois deos Oito Batutas de Pixinguinha terem excursionado,e comsucesso,a Paris ,centro da cultura e da insolência comporta-mental do “années folles”.Na verdade,acredito que,apenas no século XIX,a histó-ria da música popular fixaria os primeiros grandes nomesdaqueles que iriam formar as bases do que é hoje considerada,com pompa e circunstância,a música popular brasileira.Ressalte-se,desde logo,que música popular constituía umacriação que é contemporânea ao aparecimento das cidades.Deve-se deixar claro que música popular só pode existir ouflorescer quando há povo.Nos três primeiros séculos de colo-nização houve tipos definidos de formas musicais:os cantospara as danças rituais dos índios e os batuques dos escravos,amaioria dos quais também rituais.Ambos fundamentalmen-te à base de percussão,como tambores,atabaques,tantãs,pal-mas,apitos,etc.Finalmente,as cantigas dos europeus coloni-zadores que tinham berço nos burgos medievais dos séculosXII a XIV.Fora desse tipo de música,o que preponderavaera,com certeza,o hinário religioso católico dos padres.Ainda a registrar os toques e as fanfarras militares dos toscosexércitos portugueses aqui sediados,que foram os primeirosgrupos orquestrais ouvidos,ao ar livre,no Brasil.Uma música reconhecível como brasileira começaria aaparecer quando a interinfluência desses elementos produzis-se uma resultante.Isso ocorreu,com mais clareza e maiorconfiguração histórica,quando as populações das cidadescomeçaram a se ampliar e a ocupar um espaço físico majoritá-rio.Nesse quadro geopolítico despontaram Salvador,Recife eRio de Janeiro,todas com forte influência negra.Essas popu-lações,espalhadas pelas cidades,demandavam novas formasde lazer,ou uma produção cultural.E essa produção se fezrepresentar no campo da música popular pelos gêneros ini-ciais de lundu e de modinha.O lundu – basicamente negro noseu ritmo cadenciado – ostentava a simplicidade do povo nosseus versos quando cantado,comentando na maioria dasvezes a vida cotidiana das ruas.Já a modinha - basicamentebranca na sua forma de canção européia - exibia versos empo-lados para cantar o amor derramado às marmóreas musas,quase sempre inatingíveis.Dentro dessa configuração,come-çam a aparecer os primeiros que assumiram a chamada músi-ca popular com prioridade.Ou seja,com a exclusividade deabraçar uma qualificação musical capaz de ser cantada,outocada,ou até dançada,fora dos salões da aristocracia.Nasruas,nas praças,nos coretos ou nos guetos mais pobres.Um dos primeiríssimos personagens de música populardentro desse contexto foi Xisto Bahia,que retomou a tradiçãode Domingos Caldas Barbosa,cujas modinhas irônicas leva-das à corte portuguesa no século XVIII se tinham transfor-mado em árias pesadonas quando D.João VI aportou no Rioem 1808,fugido da avalancha promovida por NapoleãoBonaparte na Europa.Nessa época,alguns poetas românti-cos começaram a escrever versos para serem musicados nãoapenas por músicos de escola mas por simples tocadores deviolão.Um desses,e dos mais prolixos,foi o Lagartixa,apelidocom que se tornou popular o poeta Raymundo Rebello,cujasmúsicas logo ganharam os violões anônimos das ruas.Acredito que Xisto Bahia foi um dos mais completoscompositores exclusivamente populares do início da MPB doBrasil.Xisto,violonista,compositor e ator,começou sua car-reira em Salvador,onde nasceu em 1842,atuando para umatímida classe média,que então já se esboçava.No Rio logodepois,chegou a ser co-autor de Arthur Azevedo e foi aplau-dido pessoalmente pelo imperador.Com o fim do Império,Xisto entrou em desgraça e morreu pobre e abandonado.Tragédias,as da pobreza e do esquecimento,que cairiamcomo maldição por sobre a grande maioria dos vultos damúsica do povo,a partir daí.No século XIX,a música ouvida pelas elites era,em geral,as óperas,as operetas e a música leve de salão.Os negros ou osbrancos amestiçados das camadas baixas executavam eouviam,via de regra,os estribilhos acompanhados por sons  26 de palmas e violas.A reduzida classe média – que começou ase incorporar no segundo império – ouvia apenas os gêneroseuropeus,ou seja,música leve dos salões das elite:a polca,che-gada ao Brasil em 1844,a valsa e ainda a schotish,a quadrilha,a mazurca.Dentro dessa realidade,eis que aparece um raio deluz e de invenção,o mulato Joaquim da Silva Callado.Ele cria-ria o primeiro grupo instrumental de caráter refinadamentecarioca e popular no Brasil:o choro,palavra que inicialmenteindicava apenas uma reunião de músicos e só depois o nomede gênero musical.A criação do choro representa um momen-to mágico de interação da mistura de raças no Brasil,porquefruto do gênio e da criatividade do mulato brasileiro.O novogênero,uma música estimulante,solta e buliçosa,era executa-da à base de modulações e de melodias tão trabalhadas queexigiam de seus executantes competência e talento.E,muitasvezes,um virtuosismo que a maioria não possuía.A ponto talque os editores nem queriam mais editar Callado,que chega-ria,contudo,a ser condecorado pelo Imperador com a Ordemda Rosa (1879),morrendo logo depois vitimado por uma dasmuitas epidemias que grassavam no Rio de cem anos atrás,insalubre e sem esgotos sanitários.Dentre todos os pioneiros,todavia,duas chamas indivi-duais logo se destacariam dos demais:Chiquinha Gonzaga eErnesto Nazareth.De 1877 até pouco antes de sua morte,a primeira grandeautora de música popular no Brasil fez 77 peças teatrais e 2mil composições,entre as quais jóias como o tango “Corta Jaca”e a modinha “Lua branca”.Chiquinha ainda teve corageme tempo para abraçar as causas mais nobres de sua época,como o abolicionismo,saindo muitas vezes de porta em portapara recolher donativos.A revolucionária Francisca tambémdeitou modas,desenhou seus próprios vestidos,fumou charu-tos,tornou-se notícia,caiu na maledicência popular.Mas fezde sua vida um ato de pioneirismo e coragem até hoje insupe-ráveis.A pedido do cordão carnavalesco “Rosa de ouro”,Chiquinha compôs em 1899 a primeira marcha carnavalescapara o carnaval,o “Abre alas”.Foi ainda a fundadora da SBAT(1917) e morreu no Rio com 89 anos,cercada por uma áureade mito,um ícone tanto de transgressão social quanto da con-solidação da música popular.De tão grande importância quanto Chiquinha - e talvezaté maior sob uma ótica estritamente musical – ErnestoNazareth era filho de modesta família da pequena classemédia.Aluno aplicado de piano,ele lançou o primeiro tangobrasileiro,“Brejeiro”que,no fundo,era quase um choro.Assimse iniciou uma carreira que o transformaria no compositormais original do Brasil,no dizer de Mário de Andrade:épopular e erudito ao mesmo tempo.Nazareth,contudo,des-prezava música popular e era obrigado a tocá-la em lugaresplebeus,como ante-salas de cinemas – onde aliás,era ouvidopor gente do porte de Darius Milhaud,que nele se inspiroupara compor algumas de suas peças.Rui Barbosa era outropersonagem famosíssimo que sempre ia ouvi-lo no cinemaOdeon.Dentro dessa linha dos primeiros compositores popula-res para a classe média então emergente,quero registrar aindaum outro que considero de capital importância:Catulo daPaixão Cearense.Seu prestígio se consolidaria,de fato,nosprimeiros anos do século,com o advento das gravações mecâ-nicas.Pelos velhos discos da casa Edison,na voz do cantorMário,o prestígio de Catulo não pararia de crescer.Para quese tenha uma idéia da sua influência,ele foi o primeiro a intro-duzir o violão – instrumento então considerado maldito – noantigo Instituto Nacional de Música,em rumorosa audição(1908) corajosamente promovida pelo Maestro AlbertoNepomuceno.A mais conhecida composição de Catulo,“O luar do ser-tão”(1910,gravada pelo Mário para Casa Edison),é usual-mente considerada o hino nacional dos corações brasileiros.Afamosa peça trouxe a glória definitiva a seu autor e tambémum “grave desgosto”,como chegou a confidenciar ao pianista epesquisador de MPB Mário Cabral:a acirrada disputa com oviolonista João Pernambuco,que se considerou desde logo oautor da música,fato veementemente contestado por Catulo.Aliás,João Pernambuco foi não só extraordinário músico,mastambém autor de obra curta mas interessantíssima,na qual sedestaca pelo menos um outro clássico,o choro “Sons deCarrilhão”.Enquanto Catulo era o grande sucesso na CapitalFederal do país,um Rio ainda acanhado e que dava os primei-ros passos para se modernizar como grande cidade (“quandoo Rio se limpava da morrinha imperial”,no dizer de CarlosDrummond de Andrade),apareceu em 1912 um menino de
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