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Número 07 - 2014 Departamento de Letras | Universidade Federal do Maranhão 1 A INSPIRAÇÃO POÉTICA: O DIÁLOGO ENTRE SÓCRATES E ÍON THE POETIC INSPIRATION: DIALOG BETWEEN SOCRATES AND ION Alice Ferreira Aragão1 RESUMO: Na Grécia Ant
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    Número 07 - 2014 Departamento de Letras | Universidade Federal do Maranhão 1 A INSPIRAÇÃO POÉTICA: O DIÁLOGO ENTRE SÓCRATES E ÍON THE POETIC INSPIRATION: DIALOG BETWEEN SOCRATES AND ION Alice Ferreira Aragão 1   RESUMO:  Na Grécia Antiga a poesia tinha uma valorosa função educativa que foi banida  por Platão na obra  República.  Platão considerava os conteúdos poéticos incoerentes à formação de guerreiros; se continuassem a receber essa educação resultariam em homens covardes. No entanto, os poetas eram considerados sábios assim como os políticos, artesões e técnicos. Em  Íon  Platão irá negar essa ideia e dizer que os poetas são homens inspirados e dessa forma nada sabem a respeito do conteúdo de seus poemas. O presente artigo objetiva discutir a inspiração poética a partir da obra  Íon  de Platão, apresentando o antagonismo desta com a técnica. Palavras-chave: Platão. Inspiração. Poesia. Técnica.  Na Grécia Antiga, a poesia, diferente da visão que se tem atualmente, possuía um cunho educativo de grande valor. Cabia aos poetas à transmissão dos ensinamentos para a formação do cidadão da  pólis. Logo, os poetas, assim como os políticos, dispunham uma boa imagem na sociedade grega. Em uma ocasião, Sócrates, após ser informado ser o homem mais sábio da Grécia, segundo o oráculo de Delfos, vai certificar a sabedoria, primeiramente dos políticos e detecta que estão na ignorância por acreditarem serem sábios. Sócrates é sábio, uma vez que recon hece sua ignorância e atribui todo o saber aos deuses. “Depois dos políticos, Sócrates interroga os poetas, que também gozam da reputação de serem sábios ” (DORION, 2006,  p.36). Sócrates constatou que os poetas nada sabiam a respeito do que escreviam. Além dos  poetas e políticos, desfrutavam também de tal reputação, os artesões e técnicos.  Na obra  A República , Platão vai discutir em alguns capítulos justamente a poesia na formação educacional da  pólis.  Em seu diálogo com Adimanto e Gláucon no livro III, Platão não resguarda em afirmar que algumas passagens da poesia de Homero precisam ser eliminadas para não prejudicar na formação dos cidadãos. Ainda que Platão tenha profundo respeito por Homero e os demais poetas, as passagens poéticas a que ele se refere não estariam de acordo com a formação cidadã a qual ele defendia. Das quais, deuses eram vistos 1  Graduanda em Letras na Universidade Federal do Maranhão. E-mail: alice_sud@hotmail.com  2 ISSN 2177-8868 se lamentando. Outras em que mostrava o Hades como um lugar temeroso. Platão acreditava que esses trechos da poesia de Homero iriam causar covardia aos futuros guerreiros. Iriam desencorajar os jovens do desejo de irem às guerras por temer a morte. Se se devem educar os guardiões na coragem, é necessário eliminar da sua educação musical todos os mitos e as poesias que causam medo da morte, especialmente se forem belos, tal como é preciso eliminar as poesias que representam os heróis e os deuses a chorar ou a sofrer, ou que os representam como serem intemperantes e ávidos. (CASERTANO, 2011, p.17) É importante notar que Platão não está sendo contra a poesia: “Não é que não sejam poéticas e agradáveis à maioria dos ouvintes”  (PLATÃO, 2006, p.131; 387b). As  poesias eram boas desde que fossem usadas para outras finalidades e não com o objetivo de formar guerreiros. Vale resaltar a posição divergente que Platão assume entre  Íon e  A    República . É visível a diferença de posicionamento que Platão assume nas duas obras. É interessante fazer um paralelo entre elas. N ’  A    República, Platão é hostil aos poetas, acredita que a poesia não convém à formação de cidadãos da  pólis  uma vez que transforma o indivíduo em alguém temeroso às batalhas e por ser perigosa à constituição da alma: Cá entre nós , uma vez que não me denunciarás aos poetas trágicos ou quaisquer outros imitativos, toda essa poesia provavelmente distorce o pensamento de qualquer pessoa que a ouça, a menos que possua o conhecimento de sua verdadeira natureza que atue um antídoto. (PLATÃO, 2006, p. 419; 595b) Em  Íon, Platão é mais tolerante à poesia e os poetas são vistos como intérpretes dos deuses, sem capacidade de compor seus poemas por habilidade, apenas cantando-os sem saber o que dizem. Mas nem por isso, são encarados inferiormente por Platão, ao contrário,os  poetas são mais respeitados em  Íon . As diferenças estariam principalmente na produção  poética.  N’  A    República , o poeta é o produtor de seus poemas que através da mímesis (imitação) é condenada por Platão por se distanciar da verdade. Suas obras representariam uma imperfeição da realidade. A arte é uma imitação da aparência, esta é a imitação da realidade que está no mundo intangível, portanto a arte está em terceiro nível a partir da realidade. Não é prudente que os guardiões se dediquem à poesia imitada, com exceção as imitações de pessoas honestas, boas e valentes. Curiosamente, o próprio formato do texto da obra  A    República  está em discurso direto, isso que Platão chama de imitação. Um entendimento diferente tinha Aristóteles sobre a imitação. Para ele, a criação  poética advém de duas causas naturais. A primeira é que “imitar é natural ao homem desde a infância”.  [...] e a segunda “é que aprender é sumamente agradável”. [...]. (ARISTÓTELES, 2005, p. 21: 22). As passagens da tragédia de extrema violência iriam despertar os  3 ISSN 2177-8868 sentimentos de temor e piedade aos espectadores proporcionando-lhes o alívio desses sentimentos. É o efeito purificador da catarse. Por meio da arte se poderia vivenciar emoções que na “vida real” poderiam causar prejuízo moral.   “A catharis restaura uma integridade ameaçada”. (STIRN, 2006, p.67). Dessa maneira, Aristóteles admitia a imitação na educação da  pólis e a considerava boa para a cidade. Em  Íon , o conceito de mímesis  não é visto e os poetas e rapsodos são servis dos deuses, seu intelecto é retirado e assim as Musas 2  entram em ação e por meio do enthousiasmós (entusiasmo poético) recitam os poemas sendo incapazes de se explicarem em seguida. Platão parece dar maior credibilidade as poesias no  Íon,  pois não seriam da autoria dos poetas, mas sim a própria voz dos deuses. Alguns autores explicam essa postura divergente o fato das obras serem escritas em épocas distintas. Platão teria escrito  Íon  em sua juventude enquanto  A    República  seria uma obra pertencente a uma fase mais madura de Platão. Tal maturidade não se restringindo somente a idade, mas a própria filosofia platônica. A crítica aos poetas em  Íon  diz respeito ao fato de recitar belos poemas e não saberem explicar o que dizem . Enquanto n’  A    República , a crítica ganha outras proporções mais complexas e está mais fundamentada em sua filosofia  platônica, embora não se possa delimitar com precisão onde termina a filosofia socrática e onde começa a platônica. Vejamos o que diz José André Ribeiro em seu artigo Uma interpretação comparativa dos diálogos Íon e República de Platão  a respeito dessa postura antagônica de Platão:  No Íon, então, haveria ainda um olhar socrático sobre a poesia, desprovido de teorias mais complexas, como a das formas e a da alma, que aparecem apenas  posteriormente. Segundo consta, essas teorias, principalmente a das formas,  possibilitariam situar a poesia em um patamar social e moral, de modo que a crítica aos poetas fosse mais profunda e mais complexas; sendo assim, a República é vista como um diálogo no qual Platão já supera os preceitos básicos da teoria socrática, conquistando uma maturidade filosófica própria, que o levaria à formação de conceitos mais específicos para cada problema, através dos quais ele poderia julgar a  poesia para além dos limites restritos do conceito de tékhne .(RIBEIRO, 2009, p.97) O diálogo inicia com o encontro de Sócrates e Íon, este recém-chegado da cidade de Epidauro onde teria adquirido a vitória no concurso de rapsodos 3  realizado para homenagear o deus Asclépio. Sócrates parabeniza-o e aproveita para desejar-lhe a vitória em 2  As Musas são um grupo de personagens da mitologia grega, filhas de Zeus e Mnemosive,as noves musas são ninfastas das fontes: Calíope, Clio, Polimnia, Euterpe, Terpsicore, Erato, Melpomene, Talia, e Urânia.Enciclopédia de mitologia, Marcelo Del Bebbio, 1ª edição,julho,2008.   3  Os rapsodos eram artistas que viajavam de cidade em cidade recitando poemas, principalmente os épicos que não eram de sua autoria.  4 ISSN 2177-8868 outro concurso em Atenas. Lisonjeado, Íon responde: “Mas assim será, se o deus quiser”  (PLATÃO, 2007, p.22; 530) . E é nesta frase, “que o rapsodo pronuncia sem maiores  pretensões, que vai mov er o diálogo” . (SANTOS, 2008, p.45) Continuando seu elogio, Sócrates se diz invejável pela arte 4  de Íon, visto que um  bom intérprete conhece a fundo o pensamento do poeta; “Porque um rapsodo jamais seria  bom se não entendesse o que é dito pelo poeta: é preciso que o rapsodo seja, para os ouvintes, o intérprete do pensamento do poeta”  (PLATÃO, 2007, p.22; 530). Percebe-se logo de início uma ironia na fala de Sócrates, pois ele sabe que Íon não entende o que o poeta diz nem tampouco conhece a fundo o seu pensamento. Usando seu método dialético da ironia e maiêutica, Sócrates faz perguntas que aos poucos provocam contradições e dúvidas em Íon.  No que diz respeito aos poemas de Homero, Íon se considera o melhor dentre os que falam. O mesmo “se diz especialista somente nos poemas homéricos. Nesse domínio, ele não teme rival”  (GOLDSCHIMIDT, 1993, p.89). Isso se contradiz com a arte da rapsódia, como diz Victor Goldschmidt: a rapsódia tem por objeto não somente Homero, mas todos os  poetas (exigência obrigatória). Porém, Íon diz que basta ser especialista em Homero, já que ao ouvir de outros poetas chega a cochilar. Se de fato Íon dominasse a técnica rapsódia, nada o impedia de ser bom nos outros poetas. Afinal os poetas não falam sobre as mesmas coisas? Íon tenta justificar-se ao falar que Homero ao se tratar de um assunto fala de modo melhor que os outros poetas. Ora, mas quem sabe dizer o que fala de modo melhor, deve saber também o que fala de modo inferior. A mesma pessoa deve ser hábil nas duas coisas. Ao concordar com os argumentos de Sócrates, Íon acaba gerando incoerências em sua fala. Sócrates completa: Ora, excelente homem, não erraremos então em dizer que Íon é do mesmo modo hábil tanto em Homero quanto nos demais poetas, já que você mesmo reconhece que a mesma pessoa há de ser juiz bastante de todos quantos falem sobre as mesmas coisas, e os poetas quase todos poetam sobre as mesmas coisas. (PLATÃO, 2007,  p.28; 532) Embora concordando com o raciocínio de Sócrates, Íon não consegue entender  por qual razão não se importa quando outros poetas são citados e ao falarem de Homero fica atento. Isso não é difícil de imaginar, amigo, mas está claro a todos que você é incapaz de falar por arte e conhecimento, porque, se você pudesse falar por arte, você também  poderia falar a respeito de todos os demais poetas.[...]. (PLATÃO, 2007, p. 29; 532) 4    Neste contexto significa “técnica” ou “habilidade”.  

Crude Dani 190614

Jul 30, 2017
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