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A viagem de Luiz de Castro Faria ao Vale do Paraíba Fluminense (1939): uma pequena pesquisa etnográfica no Brasil no fim da década de 1930 Lucimeire da Silva Oliveira1 Alfredo Bronzato da Costa Cruz2 O presente trabalho analisa o diário de viagem produzido pelo antropólogo Luiz de Castro Faria (1913-2004) na expedição feita à re
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    A viagem de Luiz de Castro Faria ao Vale do Paraíba Fluminense (1939): uma pequena pesquisa etnográfica no Brasil no fim da década de 1930 Lucimeire da Silva Oliveira 1  Alfredo Bronzato da Costa Cruz 2  O presente trabalho analisa o diário de viagem produzido pelo antropólogo Luiz de Castro Faria (1913-2004) na expedição feita à região do Vale do Paraíba Fluminense entre os dias 28/11 a 3/12 de 1939. Nessa pequena viagem Castro Faria faz registros importantes, fotografando e descrevendo as características das cidades visitadas. No intento de discernir quais as principais observações etnográficas realizadas, propõe-se fazer a leitura deste caderno de viagem como fonte documental para a história da antropologia no Brasil. 3  No período da referida expedição, Castro Faria trabalhava como naturalista no Museu Nacional, na condição de praticante gratuito 4 . Considerado uma das principais figuras da constituição do campo da antropologia no Brasil do século XX, deu início à sua carreira, alguns anos antes, em 1936, na Divisão de Antropologia e Etnografia. Já em 1938, Castro Faria foi indicado por Heloisa Alberto Torres, então diretora do Museu Nacional, para representar o Museu Nacional e o Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas, na expedição à Serra do Norte, Mato Grosso, chefiada por Claude Lévi-Strauss. Tal expedição foi o “batismo de fogo” da sua formação de antropólogo, como ele declarou em entrevista, em 1997 (DOMINGUES, 2001:19). Esta empreitada representou um primeiro contato direto com a etnografia inspirada em  Rondônia  de Edgard Roquete Pinto (GARCIA & SORÁ, 2001:25; DOMINGUES, 2001:18). Desde então, Castro Faria intensificou suas pesquisas de campo, concentrando seus trabalhos nos campos da antropologia social e da arqueologia (ALMEIDA, 2006:102).  1  Mestre em História Social pelo PPGHIS/UFRJ. Bolsista de Programa de Capacitação Institucional (PCI - CNPq) do Museu de Astronomia e Ciências Afins - MAST 2  Mestre em História pelo PPGH/UNIRIO. Bolsista de Programa de Capacitação Institucional (PCI - CNPq) do Museu de Astronomia e Ciências Afins- MAST (2011-2014)   3  O presente artigo foi produzido no âmbito das atividades do projeto “História da antropologia no acervo Luiz de Castro Faria”, do CNPq, do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST/MCTI), sob a coordenação da Profa. Heloisa Maria Bertol Domingues.   4  O equivalente ao que conhecemos atualmente como estagiário sem remuneração.   Entre o final das décadas de 1930 e 1960, Castro Faria realizou trabalhos de campo em vários pontos do país, priorizando o litoral. 5  Para ele, a pesquisa de campo era o meio de conhecer “como se forma e se desenvolve o patrimônio cultural de um povo” (CASTRO FARIA, 1999: 299). De acordo com Domingues, ele fez antropologia ecológica tanto quanto econômica, criando um estilo científico (DOMINGUES, 2008:39). Nesse período, com suas pesquisas de campo, estava empenhado em compreender a organização social nas relações do homem com o meio natural circundante, o que o levava observar as relações de trabalho, o comércio e as indústrias locais, os métodos e os materiais do artesanato, as vias e meio de transporte e as formas de expressão cultural, de uma forma mais geral. É nesse quadro amplo de interesses que se inseriu o trabalho que se trata aqui, realizado na viagem ao Vale do Paraíba Fluminense em 1939. Em contraste a Expedição à Serra do Norte, chamada de a última grande expedição etnográfica do século XX 6 , a viagem ao Vale do Paraíba Fluminense pode ser considerada como sendo a primeira pequena expedição de Castro Faria, posto que se configura na primeira expedição de rotina do antropólogo rumo à sua maturidade profissional, e é marcada por pequena duração. Tal incursão durou apenas seis dias, nas quais foram visitadas apenas quatro cidades: Paraíba do Sul, Barra do Piraí, Barra Mansa e Resende; posto que viagem teve que ser abortada antes do previsto devido a uma doença que acometeu seu acompanhante. Como é bem conhecido, a região do Vale do Paraíba Fluminense passou por um período de vigorosa prosperidade no século XIX. O cultivo do café foi então, sem dúvida, fator de progresso econômico da região, que cresceu e diversificou as funções dos seus centros urbanos, desenvolvendo uma cultura própria (MULLER, 1969: 55-67). O Vale do Paraíba possuía condições favoráveis de solo, clima e topografia, além de uma imensa bacia hidrográfica, com 57.000 km² de área 7 , que beneficiou a criação de um sistema social, econômico e financeiro que ficou conhecido historicamente como Ciclo Econômico do Café  . 5  A cronologia completa do trabalho de Castro Faria pode ser consultada no website  do MAST, no portal: http://castrofaria.mast.br/cronologia_LuizCastroFaria.pdf (consultado em maio de 2014).   6  Assim chamada por suas caracteristicas de longa duração, pela abrangência de várias áreas das ciências naturais, pelo objetivo de fazer coleções de objetos locais, pelo registro em imagens fotográficas, como no século XIX, se faziam desenhos (DOMINGUES, 2001:17). 7  Sendo 39,6 % em terras fluminenses, 36,7% em terras mineiras e 23,7% em terras paulistas (LAMEGO, 1950: 316).     Foi nesse sentido, produzindo café, que o Vale do Paraíba se tornou uma das áreas socioeconômicas mais importantes do Brasil durante praticamente todo século XIX. Para termos uma ideia, já em 1852, somente a parte fluminense do Vale produziu “7 milhões e 193 mil arrobas (15 kg cada), respondendo por 77% das exportações brasileiras”, chegando a 81% das exportações brasileiras em 1860 (LIMA, 2008: 20). No período imediatamente anterior à Grande Guerra de 1914-1918, o café do Vale do Paraíba cobria aproximadamente 70% das exportações deste produto para o mercado mundial (DONGHI, 1978: 253). Contudo, já no final do século XIX, o Vale do Paraíba – tanto a sua parte fluminense quanto paulista – começou a perder sua hegemonia para a região oeste de São Paulo. 8  Apesar de algumas regiões do Vale do Paraíba ainda possuírem volume considerável de produção cafeeira no final da década de 1920, como Itaperuna, Guaratinguetá, Lorena e São José dos Campos, é notório a derrocada do Vale no período imediatamente posterior a 1918 (RICCI, 2006: 27). Tal declínio deu-se por inúmeros motivos, dentre os quais o fim escravidão, que prejudicou os fazendeiros que não haviam adotado a mão de obra imigrante e, sobretudo, a utilização de técnicas inadequadas de plantio; além de uma série de pragas como a  ferrugem que atacava os cafezais desde meados do século XIX (DOMINGUES, 2005:224; PÁDUA, 2002:250). De acordo com Stanley Stein, o conservadorismo de alguns fazendeiros que insistiam em usar técnicas rudimentares de cultivo condenou não só a Mata Atlântica, mas a economia baseada na exportação do café (STEIN, 1984: 189). A chegada da ferrovia ao Vale do Paraíba Fluminense nos anos de 1875-1877, ferrovia que intentava ligar a cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império e principal porto do país, com o interior do território paulista, fez-se no momento em que se começava a anunciar no horizonte a virada histórica que determinaria a decadência da economia do café nesta região. Em curto prazo ela incrementou ao invés de comprimir o poder político da aristocracia cafeicultura, porque, como observou Raimundo Lopes, a estrada de ferro levava rapidamente da fazenda à capital imperial, pouco mais adiante republicana; em evidente contraste com “o homem público nortista, [que] quando deixa de ser um fazendeiro e político municipal, ou um letrado e político estadual, é quase sempre levado a fixar-se na metrópole da federação, por força das circunstâncias geopolíticas” (LOPES, 2007: 223). Também impulsionou o desenvolvimento no 8  Tal região corresponderia atualmente ao noroeste do Estado de São Paulo, o nordeste e a área central do mesmo.     Vale de novas atividades econômicas, voltadas para a própria estrada de ferro. Dessa maneira, alterou-se progressivamente a dinâmica das cidades da região do Vale do Paraíba Fluminense, passando a ferrovia a ser o ponto de referência para seu desenvolvimento, contribuindo para o aparecimento de uma economia de cunho cada vez mais industrial. Com as modificações trazidas ao cenário pelas mudanças socioeconômicas das três primeiras décadas do século XX, essa tendência só faria tornar-se mais e mais pronunciada (RICC1, 2006: 33). Foi no interior deste quadro de transformações no Vale do Paraíba Fluminense que Castro Faria interessou-se pela área e decidiu fazer ali a primeira expedição independente de sua carreira, após o batismo profissional da viagem à Serra do Norte. As mudanças econômicas provocadas pelo fim do ciclo cafeeiro e pela irrupção da estrada de ferro na paisagem local redundaram em transformações mudanças sociais profundas, a serem observadas pelo antropólogo. A viagem começou, no dia 24 de novembro de 1939 quando Castro Faria recebeu a notícia de Dr. Lewis de que podiam de viajar no começo da semana seguinte para o Vale. 9  Após conseguir autorização de Heloisa Alberto Torres para dar início à viagem, Castro Faria entrou em contato com Cristóvão Leite de Castro, que na época era secretário Geral do Instituto Brasileiro de Geografia, para obter informações prévias sobre a região. 10  Após essa visita, decidiu conhecer vinte de dois municípios do Vale do Paraíba, compreendidos entre Paraíba do Sul e Jacareí. 11  Terminados os preparativos, Castro Faria e Dr, Lewis partiram de trem da Central do Brasil, no dia 28 de novembro pela manhã. Os primeiros registros feitos por Castro Faria em seu diário de campo foram realizados do interior do trem, característica que acompanha todo o relato do antropólogo, mostrando a importância que tinha então a ferrovia para a região do Vale do Paraíba Fluminense. Todavia, o primeiro registro efetivamente feito em campo pelo antropólogo é sobre o subúrbio do Rio de Janeiro. Da janela de seu vagão de passageiros, o antropólogo observa a importância dos campos de futebol para a comunidade local: 9  Até o presente momento, nossas pesquisas não puderam avançar no sentido de conseguir referência sobre o Dr. Lewis.   10  Engenheiro, geógrafo e professor, Cristóvão Leite de Castro foi secretário Geral do Conselho Nacional de Geografia de 1937 a 1950. Coube a ele implementar em 1972 o novo sistema Teleférico do Pão de Açúcar, cujo projeto idealizou e supervisionou. Leite de Castro é considerado um dos responsáveis pelo desenvolvimento da atividade de pesquisa geográfica no Brasil no início do século XX.   11  A saber: Paraíba do Sul, Vassouras, Valença, Barra do Piraí, Barra Mansa, Bananal, Rezende, Pinheiros, Areias, Silveiras, Queluz, Cruzeiro, Cachoeira, Lorena, Guaratinguetá, Aparecida, Pindamonhangaba, Tremembé, Taubaté, Caçapava, São José dos Campos e Jacareí (CASTRO FARIA, 1939, pp. 1-2).  
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