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A Noção de Lingua Na ADF

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Analise de discurso
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  157 Unoesc & Ciência – ACHS, Joaçaba, v. 4, n. 2, p. 157-168, jul./dez. 2013 A NOÇÃO DE LÍNGUA PARA A ANÁLISE DO DISCURSO Rossaly Beatriz Chioquetta Lorenset * ResumoEste estudo possui como escopo responder à questão: Qual é a concepção de língua para a Análise do Discurso (AD) de corrente francesa pechetiana? Propõe-se apresentar, aqui, por meio de pesquisa bibliográca, um outro olhar para a noção de língua que se traduz em arcabouço teórico, à medida que se está reetindo a acepção de língua na perspectiva discursiva. A AD é um campo de saber especíco, contudo, dialoga com a Linguística. Somente se adere à cienticidade pelo conhecimento, nesse sentido, transitar-se-á pelas concepções de língua e como elas se relacionam: língua imaginária, língua uida, língua materna, língua estrangeira e língua nacional. Percebe-se, ao longo deste estudo, que as diferentes concepções de língua se inter-relacionam, estão imbricadas, coexistem dispos- tas – sobrepostas – umas às outras.Palavras-chave: Concepções de língua. Análise do Discurso. Ensino de língua. 1 INTRODUÇÃO Referendando a fala do mestre Paulo Freire “[...] preciso falar da área onde estão meus pés” e se o fazer teórico é um fazer historicamente situado, propõe-se, então, a partir da práxis da docência de 12 anos em ensino superior em que se trabalha o Português Instrumental com ênfase em Linguística Textual, apresentar aqui um deslocamento teóri- co, um outro olhar que se traduz em arcabouço teórico, à medida que se está reetindo a noção de língua na perspectiva discursiva. Assim, este estudo objetiva responder à ques -tão: Qual é a concepção de língua para a AD de corrente francesa pechetiana? A AD é um campo de saber especíco, contudo, dialoga com a Linguística, pois, para o seu fundador, o francês Pêcheux (2009, p. 18-19), faz-se mister tocar o triplo real da língua, da história, do inconsciente [...] que se habitem e se habituem uns com os outros . ” Nesse cenário, considerando indispensável que uma base teórica supere o empirismo na delimitação dos fatos e na sua análise e que apenas se adere à cienticidade pelo conheci -mento, transitar-se-á, neste estudo, pelas concepções de língua e como elas se relacionam: língua imaginária, língua uida, língua materna, língua estrangeira e língua nacional. *  Mestranda em Estudos Linguísticos, na linha de pesquisa Práticas Discursivas e Subjetividades, pela Univer - sidade Federal da Fronteira Sul; docente de Língua Portuguesa da Universiade do Oeste de Santa Catarina de Xanxerê; Rua José Bonifácio, 466, Centro, Xanxerê, SC, 89820-000; professora.rossaly@gmail.com  Rossaly Beatriz Chioquetta LorensetUnoesc & Ciência – ACHS, Joaçaba, v. 4, n. 2, p. 157-168, jul./dez. 2013 158 2  A NOÇÃO DE LÍNGUA O Dicionário Houaiss da língua portuguesa (Houaiss, 2009, p. 1182-1183) apresenta a etimologia da palavra língua, proveniente do latim – lingüa, ae  – , o registro diacrônico – 1152 foi o ano do primeiro registro conhecido ou estimado em que este vocábulo foi uti - lizado – e traz mais de uma centena de acepções para o vocábulo língua, entre as quais, destacam-se: s.f. (1152) […] 5 sistema de representação constituído por palavras e por regras que as combinam em frases que os indivíduos de uma comunidade linguística usam como principal meio de comunicação e expressão, falado ou escrito 5.1 idioma nacional 6 para o linguista Ferdinand de Saussure (1857-1913), o sistema abastrato de signos inter-relacionados, de natureza social e psíquica, obrigatório para todos os membros de uma comunidade linguística. ETIM latina lingüa,ae ‘língua (órgão animal), linguagem, idioma de um povo’.   Estranhamento causa o fato de que aquele que é o guardião da compilação completa das unidades léxicas de um idioma, responsável por fonecer denições e infor - mações acerca dos vocábulos não preencha um hiato na acepção da noção de língua: O que é língua para a AD? Concorda-se que esse é um campo de saber epistemológico re- cente – década de 1960 do século XX –, assim, provalvelmente a contemplará em edições vindouras, anal, a língua é viva e está na boca do povo , armação anônima que enuncia a evolução irrevogável do idioma bem como evidencia que seus usuários são aqueles que propiciam alterações contumazes, tantas, até chegar o momento inevitável em que o di - cionário as abarca e as incorpora em seu léxico. Nesse ínterim da mudança, ressalte-se o corte epistemológico, a ruptura efetuada por Saussure (2012, p. 39), o pai da linguística, que ensinou que é “[...] o ponto de vista que cria o objeto” e a teoria dos signos mos - tra que a linguagem é uma forma de interpretar o mundo. O mestre genebrino separou o conjunto linguagem em língua  – parte social – e  fala  – ato individual. Embora língua e fala sejam universos distintos, são inter-relacionados, em uma relação quase de interde - pendência. A distinção linguagem/língua/fala situa o objeto da Linguística para Saussure, que focalizou em seu trabalho a linguística da língua, considerada em si mesma e por si mesma, único e verdadeiro objeto da Linguística. Embora o conceito saussuriano de língua exclua a fala e, consequentemente, o sujeito da sua constituição, para Pêcheux, foi genial a percepção de Saussure (2012, p. 41) de que a língua não é homogênea, nem transparen - te, nem estável, para o linguista suíço a “[...] linguagem é heteróclita e multifacetada.” Se Saussure separou língua e fala, separou ao mesmo tempo o que é social e o que é histórico. No discurso, têm-se o social e o histórico indissociáveis. Eis a razão que conduz à concepção de que a língua é entrelaçada à exterioridade e concebida como uma materialidade que constrói, produz sentidos na relação do sujeito com o ideológico e o histórico. É a materialidade linguística que conduz o analista às fronteiras da língua, a  A noção de língua para análise do discurso 159 Unoesc & Ciência – ACHS, Joaçaba, v. 4, n. 2, p. 157-168, jul./dez. 2013 relação linguagem e exterioridade é um sistema em constante movimento. As línguas são heterogêneas, não são sistemas perfeitos, prontos, acabados. Pergunta Saussure (2002, p. 39-41): “Mas o que é a língua? […] ela não se confunde com a linguagem; é somente uma parte determinada, essencial dela. […] É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções neces - sárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivídu - os.” Importante salientar que a teoria de análise linguística herdeira das ideias de Saus - sure foi denominada estruturalismo. Para diferenciar o conceito de língua na perspectiva linguística e discursiva, Leandro Ferreira (1999, p. 124-125) assevera: Na visão do lingüista, a língua – enquanto sistema só conhece sua ordem própria, o que vai impedir-lhe de considerar os deslizamentos, lapsos, mal-entendidos como parte integrante da atividade de linguagem. Já o discursivista, como se sabe, aca - tando a lição de Pêcheux, incorpora tais desvios “problemáticos”, como fatos es - truturais incontornáveis e próprios à língua. Nesse viés do enredo teórico, convém abordar, sucintamente, o termo Linguística. Ao observar a língua em uso, o linguista procura descrever e explicar os fatos: os padrões sonoros, gramaticais e lexicais que estão sendo usados, sem avaliar aquele uso em termos de um padrão: moral, estético ou crítico. Julgamentos não são efetuados pelo linguista, cuja função é estudar a expressão linguística como um fato merecedor de descrição e explicação dentro de um quadro cientíco adequado. A Linguística, como qualquer ciência, descreve seu objeto como ele é, não especula nem faz armações sobre como a língua deveria ser: examina a língua de forma independente, livre de preconceitos sociais ou culturais. Faz-se mister raticar que, sim, há um padrão culto de língua, o qual possui o referendo, o prestígio e a autoridade da Academia Brasileira de Letras, cujo léxico está abarcado no Vocabulário Ortográco da Língua Portuguesa (VOLP), a espinha dorsal do idioma pátrio no território nacional, que possibilita o entendimento de todos os usuários brasileiros, do Oiapoque ao Chuí. Contudo, o complexo fenômeno linguagem não compre -ende apenas as propriedades formais do sistema linguístico nem as exlui, mas se abre para outras abordagens que considerem o contexto, a sociedade e a história. Nas leituras dos textos do mestre Pêcheux, textos recheados de questões que se abrem para a possibilidade de outras perspectivas, depara-se com a vontade de verdade, vontade de saber. Foucault (2012, p. 15) faz reexões acerca desta vontade: […] “deslo - car: as grandes mutações cientícas podem talvez ser lidas, às vezes, como consequência de uma descoberta, mas podem também ser lidas como a aparição de novas formas na vontade da verdade.” Vontade da verdade nas atividades linguageiras: é pelo cruzamento de vozes que concordam ou polemizam entre si que se constroem novas verdades. O cien - tista tem de se habituar a acolher exceções e novas formulações, visto que a longo prazo elas se constituirão em novas regras, novas verdades. Assim como as línguas, as teorias também mudam com o passar do tempo.  Rossaly Beatriz Chioquetta LorensetUnoesc & Ciência – ACHS, Joaçaba, v. 4, n. 2, p. 157-168, jul./dez. 2013 160 Para responder à pergunta-bússola do estudo proposto – Qual é a noção de língua para a AD? –, faz-se necessário passear por distintos conceitos de língua e como essas acep- ções de língua se relacionam entre si: língua imaginária, língua uida, língua materna, língua estrangeira e língua nacional. Antes de adentrar no estudo pormenorizado das con - cepções de língua, evidencia-se que a língua da linguística aplicada é justamente o avesso da concepção de língua da AD. A língua da AD é a materialidade especíca do discurso, é “[...] aquela da ordem material, da opacidade, da possibilidade do equívoco como fato es - truturante, da marca da historicidade inscrita na língua. É a língua da indenição do direito e avesso, do dentro e fora, da presença e ausência.” (LEANDRO FERREIRA, 2005, p. 17). Por conseguinte, a língua é passível de rupturas, de falhas e de brechas pela qual sentidos outros transbordam. “Todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar - -se outro, diferente de si mesmo, de deslocar discursivamente de seu sentido para derivar para um outro.” (PÊCHEUX, 2012, p. 53). A partir dessa perspectiva, será abordada a rela - ção entre as diversas acepções de língua, deslocando e deslizando da concepção sistêmica de língua fechada em si mesma, pois em lugares homogêneos sempre despontam algumas singularidades, consoante Milner (2012, p. 20): Mas a língua só se concebe claramente na isotopia absoluta: de qualquer ponto que se a considere, ela deveria oferecer uma mesma sionomia […] Uma língua, como objeto possível de uma proposição capaz de ser válida para todos, […] sem - pre idêntica em si mesma, sempre inscritível na esfera da univocidade e sempre isotópica. Numa só palavra, ela deve ser Uma . Ora, é evidente que essas condições irredutíveis só são satisfeitas caso se descartem determinadas proposições. Corroborando esse prisma, Stübe Netto ( 2008, p. 72) destaca a necessidade de contato da língua com sua exterioridade, com outras áreas, o que não acarretará perda de sua especicidade pois “[...] apenas o reconhecimento da língua como heterogênea, em que se articulam e imbricam os aspectos estruturais (formais) atravessados por questões subjetivas e sociais, permite um deslocamento nas reexões linguísticas.” Não há como tecer aspectos que contribuam para a construção da noção de língua sem mencionar o livro  A língua inatingível  de Pêcheux, publicado na França em 1981. Nes - te livro há um capítulo intitulado “Os homens loucos por sua língua” em que Pêcheux abor - da a logolia – o amor da língua nos move falar da língua – a paixão que alguns homens têm pelas palavras, “[...] loucura das palavras que pode desembocar na escrita, na poesia, na teoria linguística.” Pêcheux aponta ainda nesse texto que alguns homens “[...] possuídos pela loucura das palavras” são conduzidos “[...] deixando errar seu uxo no corpo pleno da linguagem” enquanto outros homens também “[...] possuídos pela loucura das palavras decidem construir seu império de ciência e de texto.” (GADET; PÊCHEUX, 2004, p. 45-46).
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