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Cardoso de Oliveira - 1993 - Quando Fazer é Refletir (Sobre a Importância do Ensino de Filosofia na Formaçao do Antropólogo).pdf

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SÉRIE ANTROPOLOGIA 150 QUANDO FAZER É REFLETIR Luís R. Cardoso de Oliveira Brasília 1993 Quando Fazer é Refletir 1 (Sobre a Importância do Ensino de Filosofia na Formação do Antropólogo) Prof. Luís R. Cardoso de Oliveira Em outras oport
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  SÉRIE ANTROPOLOGIA150QUANDO FAZER É REFLETIR Luís R. Cardoso de OliveiraBrasília1993  2 Quando Fazer é Refletir  (Sobre a Importância do Ensino de Filosofia na Formação do Antropólogo) 1 Prof. Luís R. Cardoso de OliveiraEm outras oportunidades, ao discutir as características do conhecimentoou da interpretação antropológica, tenho chamado a atenção para a importância dadimensão filosófica da antropologia. Deste modo, sugeri que a disciplina teria sedesenvolvido a partir de um dilema constitutivo entre, de um lado, uma ênfase nocarater local e contextualizado da interpretação etnográfica e, de outro, uma preocupação com questões de validade. Da mesma forma, indiquei que este dilemafazia com que o trabalho antropológico estivesse profundamente marcado por umadialética radical entre a ciência e a filosofia, entre o empirismo e a metafísica, ou entreo dado e o significado (L. Cardoso de Oliveira, 1993:67). Procurava demonstrar entãoque a combinação de uma especialização no estudo das sociedades ditas primitivas ouexóticas, --especialmente forte durante o período de formação da disciplina--, com a prática do trabalho de campo fazia com que o sucesso do empreendimento etnográficofosse condicionado pela relativização efetiva das categorias de entendimento doantropólogo, ainda que isto tivesse que ser feito a revelia deste (Idem:68-69). Isto é,inspirado no lema da observação participante , assinalava que o antropólogo não podiaabdicar de um exercício hermenêutico que conjugasse a dimensão analítica de seuempreendimento (aquela que enfatiza o distanciamento, a observação e a objetividade)com a dimensão auto-reflexiva (que não perde de vista a idéia de pertencimento ou de participação, assim como as pressuposições culturais do pesquisador). Quando fui convidado para participar desta mesa-redonda, sobre anecessidade da Filosofia para outros cursos da Universidade , estimulado peloequacionamento do problema proposto pelo Prof. Julio Cabrera, pensei que seria uma boa oportunidade para desenvolver estas idéias no contexto de uma reflexão sobre asrelações entre práticas de ensino e/ou de aprendizado nas duas disciplinas. Isto é, comonão poderia deixar de ser, a partir de uma perspectiva antropológica. Neste contexto, ao invés de me preocupar com o significado da filosofia para as Humanidades em geral, enquanto referencial obrigatório para o pensamento   1 Trabalho apresentado na mesa redonda É Necessária a Filosofia para Outros Cursos daUniversidade? , realizada durante a IV Semana Universitária da UnB , em abril de 1993.Pensando no carater interdisciplinar do evento, não resisti a tentação de parodiar o título da obraclássica de Austin, Quando Dizer é Fazer... , recentemente traduzida para o português (1990).A paródia me pareceu apropriada não só por retratar bem um aspecto central da pesquisaantropológica, mas também porque o livro de Austin tem tido grande penetração na comunidadeantropológica e esta recepção se constitui num bom exemplo da fecundidade do diálogo entre asduas disciplinas.  3 ocidental, ou mesmo para modalidades específicas de realização do empreendimentoantropológico, nas quais o pesquisador desenvolve um diálogo direto com a tradiçãofilosófica, resolvi centrar minha discussão naqueles aspectos ou dimensões dadisciplina que teriam algo a dizer para o fazer antropológico em geral. Afinal decontas, haveriam semelhanças ou relações entre o fazer antropológico e o fazer filosófico cuja exposição ou aprendizado por parte dos antropólogos pudesse torná-los profissionais mais bem equipados? Até que ponto o ato de antropologizar um problema teria algo de filosofar sobre o mesmo? Até que ponto, digamos, o estudodos Diálogos Socráticos pode nos ajudar a compreender melhor as práticas de bruxaria entre os Azande, os funerais Bororo, as concepções de família entre populações camponesas no nordeste, o processo de impeachment do ex-PresidenteCollor, ou, para trazer o problema para horizontes ainda mais próximos, porque entre oshistoriadores um pesquisador de cinquenta anos é às vezes considerado imaturo pararealizar um trabalho de maior fôlego, enquanto entre os matemáticos o auge da carreiraé percebido como estando destinado a chegar ao fim por volta dos vinte e cinco anos deidade (Geertz, 1983:159)?Tomando como referência o título dado a esta exposição, pode-se dizer que a principal caracterísica do fazer antropológico é a indissociabilidade entre pesquisa empírica e reflexão, assim como definida no primeiro parágrafo do texto. Damesma maneira, se relativizarmos as srcens marcadamente Kantianas danoção de reflexão, poderíamos dizer que a filosofia em geral não pode abrir mão daatitude reflexiva na medida em que qualquer que seja a maneira que a disciplina sejadefinida e qualquer que seja o seu foco de interesse privilegiado, o exercício filosóficonunca deixará de se constituir num pensa  (ou questionar) sobre o pensamento . Sejaeste apreendido através da linguagem, das representações, das visões de mundo, ou dealguma forma de discurso sobre a experiência (ou existência) humana. Além disto, seja a filosofia concebida como a guardiã da raciona-lidade , para utilizar uma expressão de Habermas (1989), como a arte de formar [deinventar, de fabricar] conceitos , para fazer uso agora de uma formulação de Deleuze &Guattari (1992:10), ou como a atividade de descrever jogos de linguagem e/ou formas de vida , para não deixar de citar a visão de Wittgenstein (1979), --que temgrande penetração em certos círculos antropológicos--, o trabalho do filósofo é sempreidentificado com o processo de desvendar significados e de esclarecer idéias, trazendo atona a preocupação da filosofia com a sustentação de seu próprio discurso, entendidoaqui como, simultâneamente, o objeto e o produto das investigações dos filósofos.Pois são exatamente estas duas caracterísicas da filosofia, isto é, (a) ter o pensamento ou as idéias como foco de investigação e (b) a preocupação com asustentação ou coerência de seu próprio discurso, que me parecem particularmentefecundas para o fazer antropológico. Diferentemente da filosofia, a antropologia éuma disciplina que só se realiza através da pesquisa empírica. Entretanto, como é bemsabido entre os iniciados, as práticas, situações e/ou contextos sociais estudados peloantropólogo só se tornam intelegíveis à luz das representações dos nativos . E é noesforço de compreensão destas representações, muitas vêzes vivido como umaexperiência de confrontação no plano das idéias ou dos conceitos, que a dimensãoreflexiva da pesquisa antropológica revela toda a sua relevância e potencial de elucida-ção. É aqui também que o fazer filosófico e sua atenção para com a coerência interna  4 do discurso fala mais de perto para a experiência do antropólogo. Neste sentido, aimportância atribuida pelos antropólogos ao ponto de vista nativo , assim como a preocupação em desvendar a lógica interna do sistema (nativo), constituemnoções/orientações básicas amplamente compartilhadas na comunidade de pesquisadores.O que eu gostaria de enfatizar no momento, e que me parece umacontribuição central da filosofia para esta área de confluência com a antropologia, é anecessidade de consideração do que, na falta de um termo melhor, eu utilizaria a noçãode internalidade 2  do pensamento ou das representações, das visões de mundo, dos jogos de linguagem e, porque não, das formas de vida. Através desta noção eu gostariade chamar a atenção não só para a preocupação com a coerência interna do discursofilosófico mas, sobretudo, para a necessidade de se qualificar esta coerência que nãodeve ser apenas lógica, pois deve satisfazer as demandas de sentido cuja verbalizaçãoseria razoável esperar de um interlocutor (real ou virtual) cognitivamente engajado nas propostas do autor, e que se empenhasse em conseguir entender adequadamente asimplicacões do discurso em pauta. Isto é, o discurso filosófico não pode se contentar emser apenas portador de algum  sentido, mas tem que manter a pretensão de ser capaz de persuadir seus interlocutores quanto a plausibilidade dos argumentos apresentados emrelação ao problema substantivo que norteia a discussão.Isto não significa que os interlocutores não possam divergir do discursoapresentado. De fato, eles com freqüência o fazem. O que é importante assinalar aqui éque um discurso minimamente consistente e digno de arguição ou de questionamentosnão pode ser identificado como uma mera abstração (vazia de conteúdos), nem como portador de um sentido lógico mas arbitrário, ainda que não contraditório. Em últimainstância, para que o discurso filosófico possa se manter enquanto tal ele tem que ser visto e apreendido como sendo portador de ensinamentos , ainda que não consigamosnos identificar com as propostas do autor. Desta maneira, o aprendiz de filosofia pode edeve aprender com Descartes sem ter necessáriamente que adotar o método cartesiano, pode e deve aprender com Hegel sem que isto faça dele necessáriamente um dialéticoou Hegeliano, pode e deve aprender com Frege ou Russell sem que isto o tornenecessáriamente um lógico, pode e deve aprender com Pierce ou Dewey sem que istonecessáriamente o transforme num filósofo pragmatista e etc...Chamo a atenção para o fato de que não estou propondo nenhum tipo deecletismo ao insitir na possibilidade de se aprender com tradições filosóficas diferentes.Longe disto. Assim como o antropólogo não pode abrir mão de sua srcem cultural enão se transforma em nativo , o aprendiz de filosofia, ou o filósofo, terá sempre umaidentidade intelctual com inclinações mais fortes e afinidades mais próximas que darãoo balizamento mais amplo do seu modo de filosofar. Não obstante, o diálogo comtradições diversas tem grande potencial de enriquecer ou de elucidar nossas idéias, e   2 A noção de internalidade  tem uma longa trajetória no pensamento filosófico ocidental,especialmente na tradição Continental, e, contemporaneamente, tem sido foco de debatesestimulantes no âmbito da História da Ciência. Para uma discussão interessante sobre afecundidade destes debates para a formulação de uma proposta de etnografia da ciência , a partir de uma perspectiva antropológica, ver o trabalho de R. Cardoso de Oliveira (1988:168-180).
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