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Amadou Hampaté Bâ - A Noção de Pessoa Na África Negra

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    1  A NOÇÃO DE PESSOA NA ÁFRICA NEGRA    Amadou Hampaté Bâ  Amadou Hampaté Bâ. A noção de pessoa na África Negra. Tradução para uso didático de: HAMPÂTÉ BÂ, Amadou. La notion de personne en Afrique Noire. In: DIETERLEN, Germaine (ed.). La notion de personne en Afrique Noire.  Paris: CNRS, 1981, p. 181  –   192, por Luiza Silva Porto Ramos e Kelvlin Ferreira Medeiros.  A. Introdução à questão; definição de pessoa. Eu me abstenho de ceder às armadilhas dos modelos padronizados. É por isso que eu não pretendo apresentar aqui uma noção de pessoa que valha para toda África Negra, mas sim limitada às tradições malianas, e nomeadamente àquelas das etnias  fula   e bambara. O que é a pessoa? Os Fula e os Bambara possuem dois termos próprios para designar a pessoa. São eles: a) neddo  e neddaaku  . b) maa   et maaya  .  A primeira palavra de cada um desses quatro termos acima significa “pessoa” e a segunda “as pessoas da pessoa”.   Por que “as pessoas”?   A tradição ensina, com efeito, que há primeiro maa  : pessoa receptáculo, e maaya  : diversos aspectos de maa   contidos na maa receptáculo.  A expressão de língua bambara “maa ka maaya ka ca a yere kono” significa: “As pessoas da pessoa são múltiplas na pessoa”.   A mesma ideia é encontrada entre os Fula. Eu cito a este propósito uma anedota que ilustra bem este fato: minha própria mãe, cada vez que desejava falar comigo, primeiro fazia vir minha mulher ou minha irmã, e lhes dizia: “Eu desejo falar com meu filho Amad ou, mas eu gostaria, antes, saber qual dos Amadou que o habita está presente neste momento”. De imediato, podemos ver, então, que se trata de uma noção muito complexa, que comporta uma multiplicidade interior, de planos de existência diferentes ou sobrepostos, e uma dinâmica constante. B. Existência O maa pode ser considerado como o receptáculo visível e palpável que serve de invólucro e suporte a outros aspectos, mais sutis, da pessoa humana. Este ser é, ao mesmo tempo, simples e múltiplo. Ele comporta elementos físicos, psíquicos e espirituais. Aquilo que se mostra mais fácil de compreender é a existência física. Ela  vai desde a concepção da criança, lasiri, à sua mudança de lugar, somayelema - dito de outro modo, sua morte. a) Concepção.  A existência física que inicia com a concepção é precedida de uma preexistência cósmica. Neste estado, o homem é suposto viver num reino de amor e de harmonia, chamado benke-so . benke se tornou a palavra que serve para designar o tio materno. Não será permitido supor que o papel sagrado e muito preponderante atribuído ao tio na vida da criança, e toda a lei matriarcal, remonta sua srcem a esta concepção?    2 Com efeito, o tio simboliza a força masculina presente na força maternal, que é feminina. Isto em virtude de uma lei tradicional que deseja que o masculino e o feminino sejam inseparáveis. Eles se encontram ao mesmo tempo na mulher e no homem. Desse modo, a tia paterna é considerada como a imagem da força feminina que assenta presente na força paternal masculina. b) O nascimento. O papel da mãe na procriação, e depois do nascimento, é muito maior, na tradição africana, que aquele do pai.  A mãe, depois de ter desenvolvido a criança dentro de seu útero durante nove meses, continua a cuidá-la, tradicionalmente, durante vinte e quatro meses.  Assim, somente após trinta e três meses de existência que a criança deixa de precisar de sua mãe para se alimentar e pode fazê-lo diretamente sem tomar qualquer complemento vindo dela. Outrora, a criança bambara   não era desmamada antes dos dois anos. A puérpera permanecia proibida a seu marido durante todo o período de aleitamento.  A vinda de uma criança ao mundo é um acontecimento grave. Existem três tipos de nascimento: 1 - o  ji-bon    (“água versada”): aborto,  2 - banngi (parto): nascimento no prazo, 3 - menkono, ou nyanguan (parto tardio): nascimento depois do prazo. 1. - O parto  ji-bon é maléfico. Ele revela que espíritos maus, no momento da copulação, conseguiram penetrar na vagina da mãe e deformar o molde do útero. A mulher é então submetida a um exorcismo especial que inclui ritos e curas, com vista a deixar as coisas no lugar. Este tratamento pode incluir um isolamento total da doente. 2. - O parto bangi   anum acontecimento feliz, não somente para os pais do recém-nascido mas para sua vila, sua tribo, país e, numa perspectiva mais vasta, a humanidade toda. O nascimento de uma criança é a prova palpável que uma parcela da existência anônima é destacada e encarnada com vista a cumprir uma missão sobre nossa Terra. O batismo é uma cerimônia no decurso do qual dão um togo  (nome) ao recém-nascido. O togo define o pequeno indivíduo. Ele o situa dentro da grande comunidade. É por isso que sua atribuição é consagrada por um rito especial chamado kun-di (raspagem da cabeça). 3. - O parto menkono  prenuncia o nascimento de um ser extraordinário: o nyanguan (supra-feiticeiro).  A criança menkono  vem ao mundo investida de um poderoso potencial. A tradição exige que tomemos precauções para orientar o caminho do menkono-nyanguan. Os rituais de prece, os banhos e os cuidados sagrados devem ser administrados ao afim que seu ser profundo não se adentre nos turbilhões nefastos que criam os grandes gênios do mal. Depois destas rápidas palavras sobre a concepção e os três tipos de nascimento, sucintamente falarei do desenvolvimento. c) Desenvolvimento. O desenvolvimento físico se realiza segundo os grandes períodos do crescimento do corpo, sendo que cada um corresponde à um grau de iniciação.  A iniciação tem o propósito de dar à pessoa física um poder moral e mental que condiciona e ajuda a realização perfeita e total do indivíduo.    3  A vida física da pessoa compreende 18 fases, sendo 9 ascendentes e 9 descendentes. Cada uma dessas fases compreende 7 períodos de um ano.  A primeira fase se estende do nascimento aos 7 anos. É a pequena infância, período em que a pessoa em formação requer a maior quantidade de cuidados possível. A mãe é o grande agente dessa época fundamental. Nessa idade, a criança depende totalmente de sua mãe. Ela é, a seus olhos, a maior força e o ser mais instruído do mundo. A criança se refere apenas a ela. Ela é seu critério, seu refúgio, sua instrutora, seu tudo ao mesmo tempo. Nesta fase de sua vida, a criança é, como uma pedaço de argila, moldável à vontade.  A criança restará durante muito tempo sob a influência e sobre o caminho traçado por sua mãe. Por esta razão, o ditado maliano nos diz: “Tudo isso que nós somos e tudo isso que nó s temos, nós o devemos uma vez a nosso pai, mas duas vezes à nossa mãe”.   A segunda fase vai dos 8 aos 14 anos  A terceira dos 15 aos 21 anos  A quarta dos 22 aos 28 anos  A quinta dos 29 aos 35 anos  A sexta dos 36 aos 42 anos  A sétima dos 43 aos 49 anos  A oitava dos 50 aos 56 anos  A nona dos 57 aos 63 anos.  Aqui acaba o período ascendente. O homem, dessa idade, atinge o ponto culminante de sua vida. É o zênite do céu de sua vida. Ele começa então a fase descendente, que se efetua em 9 períodos paralelos aos 9 enumerados acima. O esquema a seguir, feito por Tierno Bokar, o sábio de Bandiagara, explicita melhor as fases ascendentes e descendentes da vida do homem: o período ascendente de 63 anos é subdividido em três fases de 21 anos cada. Ele constitui o período de desenvolvimento das forças física e psíquicas da pessoa. A partir dessa idade, o homem inicia seu declínio, e assistimos à uma diminuição progressiva de suas forças físicas e psíquicas (ver o esquema da página a seguir). Claro, este esquema não é imperativo. Um homem pode morrer em qualquer estágio de sua vida. Mas se ele vivesse até os 126 anos - ou mais! - a regra geral faria com que ele regressasse à infância do espírito e à fragilidade do corpo. C. O que é a pessoa?   Trata-se de uma unidade monolítica, limitada ao corpo físico, ou de uma multiplicidade em agitação  permanente nas tendências psíquicas que a habitam? É ela estática ou evolutiva, ou seja, realizada ou  potencial?   Decorre do foi exposto que, segundo as tradições consideradas, o ser humano não é uma unidade monolítica, limitada a seu corpo físico, mas sim um ser complexo habitado por uma multiplicidade em movimento permanente. Ele não se trata, portanto, de um ser estático, ou concluído. A pessoa humana, como a semente, evolui a partir de um capital primeiro, que é seu próprio potencial e que vai se desenvolvendo ao longo da fase ascendente de sua vida, em função do terreno e das circunstâncias encontradas. As forças liberadas por esta potencialidade estão em perpétuo movimento, assim como o próprio cosmos.    4 Esquema das etapas da vida humana, de acordo com Tierno Bokar. D   Uma vez que a pessoa é composta em primeiro lugar de um corpo físico, qual é o papel, a significação e o simbolismo deste corpo físico?   O corpo físico, de que a pessoa é dotada, tem um outro papel além de sua função  vegetativa?  A tradição considera o corpo humano como uma reprodução em miniatura da terra e, por extensão, do mundo inteiro. Levaria muito tempo para entrar em detalhes sobre as analogias que a tradição estabeleceu entre o corpo do ser humano e a terra, considerada como mãe e cuidadora dos animais, plantas e minerais.
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