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A Propósito Da Secularização e Das Metamorfoses de Um Mundo - Luz e Rocha

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  e-cadernos CES  , 13, 2011 : 83-111   83 A  PROPÓSITO DA SECULARIZAÇÃO E DAS METAMORFOSES DE UM MUNDO ( RE ) ENCANTADO   M ANUELA S OUSA L UZ P AULA R OCHA F ACULDADE DE L ETRAS DA U NIVERSIDADE DO P ORTO   Resumo: Em pleno século XXI , e pese o significativo avanço da ciência, o certo é que o religioso persiste no mundo moderno e mesmo na Europa  –  continente profundamente secularizado  –  onde surgem várias modalidades (públicas e privadas) de manifestação do sagrado. Portugal, do mesmo modo, assiste à coexistência de tendências, aparentemente contraditórias. A par de um avanço da secularização, com base na privatização das práticas religiosas e do sagrado, regista-se também um aumento do revivalismo, bem como a inovação de novas crenças e visões do mundo.  Assim, no presente artigo, pretende-se demonstrar, através de dois estudos empíricos, a presença viva, dinâmica, da religiosidade e de espiritualidades na sociedade portuguesa, focando-se, num primeiro momento, no crescente aumento da procura das terapias alternativas , uma das dimensões do fenómeno New Age , e, num segundo, nas crenças e nas práticas ocultas vividas num quotidiano católico, no Vale do Sousa. Palavras-chave : secularização, religiosidades, espiritualidades, New Age , bruxaria. I NTRODUÇÃO  A discussão da secularização emerge no seio da sociologia enquanto consequência da modernidade, associada ao surgimento do positivismo, do racionalismo e da autonomização dos ramos científicos  –  séculos XVII  e XVIII . Embora este debate seja já longo e intenso, continua sem se verificar unanimidade entre os autores, seja no campo da sociologia, da antropologia, da filosofia ou da teologia. Neste sentido, enquanto uns consideram que a secularização é um fenómeno intrínseco ao próprio cristianismo, outros afirmam ser extrínseco, o que teoriza o geral enfraquecimento da religião. Na disciplina sociológica, a abordagem da secularização foi particularmente preconizada por Max Weber, embora este não o tenha referido nestes termos, e,  Manuela Sousa Luz e Paula Rocha  84 posteriormente, desenvolvido e aprofundado por Ernst Troeltsch. É, então, na modernidade  –  caracterizada por Weber como implicando o desencantamento do mundo  – , que a religião já não aparece como um fenómeno social fundamental para a sobrevivência da humanidade, mas antes como um fenómeno em decadência e intimamente ligado ao conceito de secularização (Vilaça, 2006). No desenvolvimento da problemática, Olivier Tschannen (1992) procura superar as abordagens reducionistas e teológicas e constrói um quadro conceptual  –  que assume como um paradigma 1  explicativo do fenómeno religioso na contemporaneidade  – , baseado em sete fundamentos principais: racionalização, mundanização, diferenciação, pluralização da oferta religiosa, privatização da religião, generalização como movimento oposto à privatização, declínio da prática, da crença e da indiferença religiosa. Desde os clássicos até aos contemporâneos, os cientistas sociais esgrimem teorias capazes de resolver as várias questões associadas à religião na vida em sociedade. Uma tarefa controversa no campo académico quando se pretende dar conta das diferentes trajetórias da religião em várias partes do mundo, o que traduz, incontestavelmente, a impossibilidade da indiferença face a esta dimensão da vida humana. Sem a pretensão de encerrar a questão ou explorar todas as tensões e dilemas existentes no presente artigo ,  a apresentação de dados empíricos é uma das fórmulas mais enriquecedoras para alimentar a discussão e arrecadar um maior proveito da reflexão científica neste tempo que, independentemente da denominação que se lhe queira atribuir, parece não querer virar costas a um  mundo (possivelmente) (re)encantado , porque teima em manter a importância do divino. De resto, a direção das interrogações, por certo, é que deverá mudar e o olhar sociológico desviar-se para a subjetividade e as crenças individuais, sem esquecer as suas possíveis influências na esfera pública. Sob esta perspetiva, valorizam-se, assim, outros caminhos analíticos que reconhecem a permanência da religião no mundo moderno, sem com isso deixar de assumir as suas transformações e, consequentemente, potenciar diferentes objetos de estudo nas ciências sociais. Nesse propósito, a pertinência do presente artigo prende-se com a apresentação de dois objetos de estudo que retratam a complexidade do fenómeno religioso quando se desloca a atenção para as formas como os sujeitos experienciam o sagrado. No primeiro caso, os Praticantes de Terapêuticas Alternativas (PTA) são alvo de interesse sociológico na medida em que se procura compreender as motivações para a procura das designadas terapias alternativas , na sua maioria, de srcem oriental, as quais propõem respostas terapêuticas holísticas, valorizando, por isso mesmo, a dimensão espiritual 1  O autor aplica a ideia de paradigma baseado no esquema kuhniano (Tschannen, 1991).  A propósito da secularização e das metamorfoses de um mundo (re)encantado 85 para a promoção da cura e ou bem-estar. No segundo caso, a análise reporta-se à religiosidade popular e à bruxaria tradicional, com o objetivo primordial em perceber a existência de novos contornos da religiosidade popular, mediados por práticas de bruxaria na área geográfica do Vale do Sousa. 1.   D A DEFINIÇÃO DA RELIGIÃO À PROBLEMÁTICA DA SECULARIZAÇÃO …   Nas palavras de Durkheim, “uma religião é um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas, interditas, crenças e práticas que unem numa mesma comunidade moral, chamada Igreja, todos os que a ela aderem ”  ( apud   Cruz, 2001: 400). Trata-se de uma organização social comum a uma comunidade, que partilha entre si o desconhecido, as questões essenciais da existência e génese humanas, bem como os diversos dilemas da vida, que procuram resolver por intermédio da fonte de fé compartilhada (Vilaça, 2006). Contudo, Hanegraaff (1999) distingue os termos “religião” e “uma religião”, sendo que o primeiro remete para “qualquer    sistema simbólico” que influencia a ação humana e permite a ligação, através de rituais, entre o mundo do quotidiano e um sistema de crenças, por um lado, e um quadro de significados mais abrangente e metafísico, por outro. O segundo termo remete para uma definição que inclui as dimensões mencionadas anteriormente, mas integradas numa instituição. Neste quadro de definição de religião, torna-se, então, essencial atendermos à sua dimensão substantiva e funcional. Numa perspetiva funcional, tal como o próprio nome indica, a religião é analisada pelo seu papel/função, enquanto numa definição substantiva analisamos o que a religião é na sua essência. Porém, segundo Steve Bruce (1998), ambas as determinações encerram em si problemas: a primeira engloba questões que não são propriamente do âmbito religioso e que, muitas vezes, são até questões seculares, como o que diz respeito ao objetivo final da religião. Para além disto, as instituições religiosas nem sempre são coniventes com o que seria previsto enquanto padrão comportamental (religioso). O interesse legítimo em explorar as similitudes funcionais da religião pode ser alcançado com a definição substantiva, enquanto parte da definição funcional. Relativamente à definição substantiva, esta também acrescenta dificuldades, já que num entendimento ocidental sobre religião, quando se procura descompactar a noção de sobrenatural, deparamo-nos com determinados obstáculos em relação às culturas não-ocidentais. Os atores sociais não conseguem discriminar o natural do sobrenatural, sobretudo quando estão envolvidos num quotidiano que convive com medidas para evitar a bruxaria ou baseado em noções ancestrais. Deste modo, os atores sociais que não fazem esta distinção não podem aplicar uma definição substantiva através das culturas existentes. Steve Bruce considera, assim, que a religião consiste num conjunto de ações, crenças e instituições,  Manuela Sousa Luz e Paula Rocha  86 ou seja, trata-se de uma entidade sobrenatural com poder de agência, que se processa sobre a consciência.  A par disto, importa realçar que a modernidade, pelo seu carácter racional, tem vindo a contribuir para um aumento da pluralização da vivência religiosa na sua assunção individual do termo. A sociedade moderna é, pois, caracterizada pela “disciplina ascética, secularização, a crença de que a razão instrumental tem validade universal, diferenciação de diversas esferas da vida, a burocratização económica, política e práticas militares e o aumento da rentabilização dos valores” (Furseth e Repstad, 2006).  Na perspetiva de Peter Berger, a religião entra no campo da secularização enquanto “processo através do qual os sectores da sociedade e da cultura são subtraídos à autoridade das instituições religiosas e respetivos símbolos” ( apud   Vilaça, 2006: 86). Por conseguinte, há uma perda da importância da instituição religiosa em prol de outras que oferecem uma semelhante satisfação das necessidades, mesmo que numa lógica distinta. Neste sentido, no plano das sociedades avançadas, estas funções latentes tornaram-se pluralistas nas suas dimensões culturais e religiosas, pelo que a religião tem vindo a perder o seu domínio sobre as atitudes morais, uma vez que, por um lado, as ciências naturais desenvolveram-se e encontraram uma resposta validada e comprovada para a ordem natural, tendo abolido alguns dos pensamentos religiosos; e, por outro lado, os governos regulam as suas decisões por diferentes pontos de vista que não apenas o religioso (antes dominante).  A secularização refere-se, portanto, ao declínio da autoridade social da religião e não das manifestações religiosas, isto é, da presença, ausência da crença, organização ou ritual religioso. Trata-se de um projeto social desenvolvido por alguns atores e, também, pela resistência de outros, que veem na secularização um fim em si mesmo, ao invés de um processo. Tal facto direciona a atenção para os conflitos que surgem acerca da autoridade religiosa e para os atores sociais que são relevantes nesses mesmos conflitos, emergentes das consequências das lutas sociais em vez das mudanças institucionais concretas. Podemos, assim, considerar, segundo o autor, que o estudo da secularização não é mais que o estudo e compreensão destes conflitos (Chaves, 1998).   De forma complementar, a abordagem de Luckmann (1974) acrescenta que a análise da religião é feita por intermédio de conceitos como a diferenciação e a segmentação social, a privatização, a bricolage   religiosa  e a mundanização, devidamente enquadrados no tempo e no espaço, uma vez que, tais variáveis têm repercussões relevantes na totalidade do sistema social. Deste modo, a religião é analisada sob uma lente específica aquando da industrialização e urbanização (modernidade), refletindo a sua institucionalização especializada. Consequentemente, há uma privatização da crença, uma vez que o modelo oficial religioso não é mais o único, são abertas novas
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