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A noção de psíquico na teoria do imaginário em Sartre

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A NOÇÃO DE PSÍQUIC O NA TEORIA DO IMA GINÁRIO DE SAR TRE1 PSÍQUICO IMAGINÁRIO SARTRE Bianca Spohr Resumo: A definição da Psicologia como ciência e de seu objeto de estudo tem sido discutida ao longo dos anos de desenvolvimento desta disciplina. E, embora os psicólogos reconheçam a importância desta problemática e tenham se dedicado a ela, ainda se consideram distantes de uma delimitação consensual. Considerando esta situação, este estudo apresenta a teoria do imaginário de Sartre como um instr
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  907 P  SICOLOGIA USP  , São Paulo, 2011, 22  (4), 907-925 A NOÇÃO DE PSÍQUICA NOÇÃO DE PSÍQUICA NOÇÃO DE PSÍQUICA NOÇÃO DE PSÍQUICA NOÇÃO DE PSÍQUICO NAO NAO NAO NAO NATEORIA DO IMATEORIA DO IMATEORIA DO IMATEORIA DO IMATEORIA DO IMAGINÁRIO DE SARGINÁRIO DE SARGINÁRIO DE SARGINÁRIO DE SARGINÁRIO DE SARTRETRETRETRETRE 11111 Bianca Spohr Resumo:Resumo:Resumo:Resumo:Resumo: A definição da Psicologia como ciência e de seu objeto de estu-do tem sido discutida ao longo dos anos de desenvolvimento desta disciplina. E, embora ospsicólogos reconheçam a importância desta problemática e tenham se dedicado a ela, ainda seconsideram distantes de uma delimitação consensual. Considerando esta situação, este estudoapresenta a teoria do imaginário de Sartre como um instrumento para se compreender o psí-quico – objeto de estudo da Psicologia. Para tanto, é realizada a análise das obras L’Imaginaire  e La Transcendance de L’Ego  de Sartre, pois estudar a imaginação e seu correlato, o imaginário,pressupõe o estudo da consciência e seu correlato, o psíquico. É possível concluir que Sartreforneceu importantes contribuições para a elucidação do psíquico a partir de sua teoria doimaginário porque reformulou a noção de imagem através da reconstituição da consciência edo psíquico e porque afirmou a imaginação como uma consciência autônoma que representa,em essência, a noção de liberdade. PPPPPalaalaalaalaalavrvrvrvrvras-chaas-chaas-chaas-chaas-chavvvvve:e:e:e:e:   Sartre. Imaginação. Imaginário. Consciência. Psíquico. 1Este trabalho é fruto da dissertação de Mestrado em Filosofia defendida pela autora em 2009 pela Universidade Federalde Santa Catarina – UFSC. Seu título é “ A Compreensão do Psíquico na Teoria do Imaginário de Sartre  ” e pode ser acessadano endereço eletrônicohttp://www.tede.ufsc.br/tedesimplificado/tde_arquivos/31/TDE-2010-03-03T150203Z-1316/Publico/PFIL0107-D.pdf.  908 A NOÇÃO DE PSÍQUICO NA TEORIA DO IMAGINÁRIO DE SARTRE B IANCA S POHR  2A palavra psíquico  é usada neste trabalho como sinônimo de ego, eu ou personalidade, e designa, confor-me dito no resumo, o objeto de estudo da Psicologia. Esta equiparação tem base na obra de Sartre: “opsíquico é o objeto transcendente da consciência reflexiva, é também o objeto da ciência chamada psi-cologia” (Sartre, 1936/2003, p. 113). No entanto, ao longo deste trabalho, a palavra mais usada será ego  porque é a utilizada por Sartre na obra em que ele desenvolve este tema. Este estudo é resultado de uma dissertação de Mestrado em Filoso-fia que pretendeu fazer uma articulação entre Filosofia e Psicologia utili-zando uma teoria filosófica para compreender um problema psicológico.É preciso, então, perguntar: de que maneira Sartre e sua teoria do imagi-nário se relacionam com a Psicologia? Ou como a teoria do imagináriosartriana pode fornecer elementos para a compreensão da consciência edo psíquico 2 ?A imagem foi o primeiro tema propriamente psicológico sobre oqual Sartre se debruçou e através do qual iniciou a discussão com os sis-temas filosóficos de seu tempo e a construção de uma compreensão pró-pria do psíquico. O diálogo com filósofos e também com psicólogos sefazia necessário porque as teorias psicológicas tinham como base os sis-temas filosóficos vigentes.A Psicologia da época, amplamente influenciada pelas perspecti-vas empirista e mecanicista, logo tornou-se alvo do olhar crítico sartriano.Entre os muitos aspectos considerados por Sartre como problemáticosnessas teorias estavam a separação entre o fisiológico e o psicológico,tomados isoladamente (sendo que todo fenômeno psíquico é psicofísi-co, isto é, implica um sujeito que é corpo-consciência); as ligações de cau-salidade externa para explicar os fenômenos psíquicos (e não de com-preensão); e a supressão do sentido  das condutas humanas (todo atohumano é significativo). E a psicanálise – uma das principais forças daPsicologia desde seu surgimento, mas também um movimento indepen-dente desta disciplina – ocupou lugar de destaque nas reflexões sartrianas,sendo referenciada desde os primeiros livros do filósofo.A teoria freudiana foi feliz, segundo o existencialista, ao recolocar“o acento na significação dos fatos psíquicos” (Sartre, 1938/2006, p. 49),o que devolveu ao psiquismo o seu dinamismo e mostrou que todo atohumano remete para algo além dele. Mas a noção de inconsciente e as“ligações de causalidade rígida” entre os fenômenos psíquicos não pa-reciam compatíveis com as perspectivas abertas por Freud. A ideia deuma consciência cindida que não sabe de si ou que ignora os significa-dos atribuídos por ela própria parecia impossível para Sartre. E, do mes-mo modo, as explicações psicanalíticas pareciam sofrer de uma contra-dição profunda: mesclavam, ao mesmo tempo, noções de causalidade ede compreensão.  909 P  SICOLOGIA USP  , São Paulo, 2011, 22  (4), 907-925 De posse dessas críticas, Sartre lançou-se na empreitada de elabo-rar uma nova teoria psicológica, começando pelo estudo da imagem. Asituação encontrada pelo filósofo poderia ser resumida no dizer de GérardLebrun na “aba” da obra L’Imagination:  a imaginação gozava entre os clássicos de má-reputação.... É pois tempo deromper esse fastidioso diálogo entre Descartes e Hume.... De um ou de outrolado,  julga-se  a imagem antes de se preocupar em dizer  o que ela é... A imagi-nação não é um delírio e merece mais do que ser deixada por conta de umapatologia do erro ou de uma psicologia da associação. Essa é a boa nova anun-ciada por Sartre em 1936: ele tira a loucura, para devolvê-la a uma consciênciaclara e ampla... e assim abre caminho à crítica radical de toda a psicologia.(Sartre, 1936/1964, aba) O texto sobre a imaginação pode ser considerado, portanto, “maisdo que uma introdução à psicologia existencialista da imaginação”, poisali Sartre colocou no banco dos réus Descartes, Leibniz, Espinosa, Hume,Bergson e, até mesmo, Husserl. Referenciou Husserl, sobretudo de umponto de vista positivo, afirmando “as perspectivas promissoras abertaspela fenomenologia” e que levariam Sartre a elaborar, na obrasubsequente, uma “psicologia fenomenológica da imagem” (Bertolino,1986, p. 4).Assim, após um percurso permeado pelos estudos críticos sobre aimagem, o tema da contingência e da liberdade, o problema da cons-ciência e do ego, a questão das emoções e a tese do ser e do nada, veio apúblico, em 1940, L’Imaginaire  , que incorporou toda a filosofia que vinhasendo desenvolvida até então. Essa obra srcinal consistiu na teoriasartriana da “dinâmica da vida imaginária” (Arruda, 1994, p. 81) e a partirde então a imaginação entrou, definitivamente, no cenário filosófico epsicológico não mais como um conceito entre outros, mas como um as-pecto essencial da vida humana.A fim de cumprir os objetivos propostos por este trabalho será apre-sentada, na primeira parte, a noção de consciência e de ego descrita, prin-cipalmente, em La Transcendance de L’Ego  . A seguir, será elucidada, bre-vemente, a teoria da imaginação e do imaginário a partir de L’Imaginaire  e, por último e a título de conclusão, será esboçada uma compreensão dopsíquico (ego) através da teoria do imaginário de Sartre. 1. A noção de consciência e ego a partir de La Transcendance de L’Ego  A influência da fenomenologia de Husserl marcou não só o estudosobre a consciência e o ego, mas também as obras subsequentes de Sartre,muito embora a distância que separava os projetos filosóficos desses dois  910 A NOÇÃO DE PSÍQUICO NA TEORIA DO IMAGINÁRIO DE SARTRE B IANCA S POHR  autores fosse significativa. Husserl fez filosofia orientada por problemasepistemológicos, pois queria um fundamento absoluto não só para asciências, mas para a própria filosofia e situou, por isso, o cerne da questãona subjetividade transcendental entendida como fonte de todo o senti-do. Sartre, por sua vez, abordou o problema ontológico por entender queele pressupunha qualquer discussão epistemológica e por desejar fun-damentar o concreto.O contexto que deu srcem à discussão realizada por Sartre em tor-no do problema do ego foi aquele da tradição (filosófica) para a qual eracerta a existência de um “eu interior”, habitante da consciência. Apoiadona fenomenologia, e, ao mesmo tempo, posicionado criticamente em re-lação a ela, Sartre dedicou-se a refutar esta tese de um ego inacessível.Desenvolveu, em La Transcendance de L’Ego, uma nova ontologia do egoa fim de esclarecer a relação entre este e a consciência, de modo a garan-tir a transparência da consciência e a transcendência do ego.Em La Transcendance de L’Ego  , Sartre   começou por reverenciar aintencionalidade expressa pela máxima “toda consciência é consciência de  alguma coisa”. Essa ideia, em Husserl, afirmava que toda consciência visa  (está posicionada frente à) um objeto, ou seja, “não há consciênciafora do ato intencional” (Alves de Souza, 2000, p. 44). Para Sartre, contudo,a intencionalidade afirmava mais, pois dizia não só sobre a consciência,mas, também, sobre o objeto: “a consciência e o mundo são dados deuma só vez: por essência exterior à consciência, o mundo é, por essência,relativo a ela” (Sartre, 1934/2005, p. 56). Assim, o mundo não poderia ser“constituído” pela consciência, já que o próprio modo de ser da consciên-cia garantiria sua transcendência em relação a ele. A intencionalidade, deacordo com Sartre,   permitiu à fenomenologia detectar “a consciênciacomo fato absoluto” e, a um só tempo, afirmar o absoluto de opacidadecomo relativo a ela: “a consciência aparece como um fato irredutível namedida em que não se pode converter em coisa; e a coisa, na medida emque não se pode dissolver na consciência, também aparece comoirredutível” (Bertolino, 1979, p. 58). Tal seria a chave para a redefinição doego, pois não restaria nenhum conteúdo na consciência, nenhum graude opacidade, ela seria pura transparência, pura relação às coisas. O egonão poderia, portanto, estar nela  como polo unificador, seria, ao contrá-rio, objeto transcendente, objeto do mundo.E como se caracteriza a consciência? A lei de toda consciência é serconsciência de  algo (relação a um objeto transcendente) e consciência(de) si (transparente para si mesma). Ser consciência de  significa ser sem-pre posicional do  objeto, estar posicionada frente a algo diferente dela,que está fora dela; e enquanto ocorre, a consciência não posiciona a simesma como objeto, ou seja, é não posicional de si porque é posicionaldo objeto. Ser consciência (de) si  , por sua vez, quer dizer ser “pura e sim-plesmente consciência de ser consciência deste objeto” (Sartre, 1936/2003,
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