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A Noção de Concomitância Na Metapsicologia de Freud

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The notion of concomitance in the Freud’s metapsychology
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  [T] A noção de concomitância na metapsicologia de Freud 1   [I] The notion of concomitance in the Freud’s metapsychology [A] Monah Winograd Docente do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Rio de Janeiro, RJ - Brasil, e-mail: winograd@puc-rio.br [R] Resumo A problemática das relações entre corpo e psiquismo permeia todo o pensamento freu-diano. Em um primeiro momento, ela aparece ligada à questão das relações cérebro--pensamento e é explícita. Depois, se torna subterrânea, mas está lá, em operação, vindo à tona, por exemplo, com o conceito de pulsão. Em vez de respostas conclusivas, encontramos pontos de articulação, dos quais selecionamos alguns em dois blocos. O primeiro bloco diz respeito aos pressupostos do pensamento freudiano. São posicio-namentos teóricos que sobredeterminam a imagem de psiquismo que Freud construiu. O 1º pressuposto é o de que processos fisiológicos e processos psíquicos acontecem concomitantemente e na interdependência uns dos outros, não podendo ser reduzi-dos uns aos outros com o estabelecimento de uma hierarquia causal – eis o foco prin-cipal deste artigo. O 2º pressuposto diz respeito à pertença de Freud a uma linhagem 1  Este texto contém trechos fortemente inspirados no artigo, de minha autoria, “Entre o corpo e o psiquismo: a noção de concomitância dependente em Freud”, Revista Psychê , v. VIII, n. 14, p. 95-118, 2004. Rev. Filos., Aurora, Curitiba, v. 23, n. 33, p. 453-473, jul./dez. 2011 ISSN 0104-4443Licenciado sob uma Licença Creative Commons  de pensamento evolucionista expressa em sua tentativa de inventar uma filogenética anímica, paralela, concomitante, dependente e em uma relação de ação recíproca com a filogenia biológica. Já o 3º pressuposto é expresso pela ideia de equação etiológica, complementada com a de séries complementares, sugerindo que, na srcem e no devir de cada psiquismo, opera a conjugação quantitativa de fatores constitucionais e fato-res acidentais. O segundo bloco é formado pelos conceitos metapsicológicos de pulsão, afeto e isso, derivados dos pressupostos. [#] [P] Palavras-chave : Concomitância dependente. Corpo-psiquismo. Metapsicologia. [#]   [B]  Abstract  The body-mind problem permeates the whole Freudian thought. At first, it appears linked to the question of relations brain-thought and is explicit. Then it becomes groundwater, but it’s there, in operation, coming to light, for example, with the concept of drive. Rather than conclusive answers, we find points of articulation, some of which we selected in two blocks. The first block concerns the assumptions of Freudian thought, theoretical viewpoints that overdetermines the image of the psyche that Freud built. The first assumption is that the  physiological and psychological processes occur as concomitant dependents and can not be reduced one to another by establishing a causal hierarchy – that is the main focus of this ar-ticle. The second assumption concerns the membership of Freud to a lineage of evolutionary thought expressed in his attempt to invent a psychic phylogeny, parallel, concurrent, and de- pendent on a relationship of reciprocal action with biological phylogeny. The third assump-tion is expressed by the idea of an etiological equation, supplemented by the complementary series, suggesting that the source and the becoming of every psyche operates as a combina-tion of quantitative factors, constitutional and accidental. The second block is formed by the metapsychological concepts of drive, affect, and id, derived from assumptions. [#] [K] Keywords : Concomitant dependent Body-mind. Metapsychology. [#] Introdução Há mais de dez anos, a imprensa americana apresentou como “descoberta cientíca” a comprovação empírica de que “terapias não químicas” (no caso, a terapia cognitiva ou comportamental, mas isso é Rev. Filos., Aurora, Curitiba, v. 23, n. 33, p. 453-473, jul./dez. 2011 WINOGRAD, M. 454  Rev. Filos., Aurora, Curitiba, v. 23, n. 33, p. 453-473, jul./dez. 2011 A noção de concomitância na metapsicologia de Freud 455 o de menos) provocam alterações comparáveis a intervenções químicas do ponto de vista da atividade cerebral (CALIGARIS, 1996). Mais recen -temente, a Folha de São Paulo  (10/08/2001) publicou uma pequena repor - tagem sobre um estudo com doentes do mal de Parkinson, realizado por pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá). Os re - sultados desse estudo sugerem que o simples ato de receber algum tipo de tratamento pode produzir efeitos em razão da expectativa de benefí - cio que ele cria. No caso desses doentes canadenses, a crença de estarem tomando algo realmente ecaz contra sua doença teria causado a libe - ração de dopamina, um mensageiro químico do cérebro envolvido, en - tre outros, no controle dos movimentos automáticos e involuntários do corpo. Com essa descoberta, os cientistas da Colúmbia Britânica preten - diam desfazer a crença corrente entre eles de que, no corpo humano, não haveria nenhum tipo de “resposta química” correspondente ao “efeito placebo” e de que qualquer efeito vericado seria apenas resultado de autossugestão. Para Jon Stoessl e seu grupo canadense, ao contrário, o chamado “efeito placebo” provocaria alterações cerebrais de magnitude e realidade comparáveis às provocadas por anfetaminas – substância co - nhecida por liberar grandes quantidades de dopamina.Antes de Stoessl e seu grupo, em 1888, Sigmund Freud fez uma descoberta parecida. Trabalhando com pacientes histéricas, o inventor da psicanálise percebeu que os tratamentos psíquicos eram tão ecazes quanto os que intervêm no corpo do paciente. Assim como o que ocorre em nosso corpo pode vir acompanhado por variações no modo como pensamos, o que ocorre no modo como pensamos faz-se acompanhar por variações em nosso corpo. Qualquer tipo de intervenção (química ou verbal) é necessariamente, em parte, de natureza física e, em parte, de natureza psíquica (FREUD, [1888] 1990a). Cento e vinte e um anos depois de Freud, será que estaríamos um pouco mais próximos da controversa “comprovação cientíca”, cuja inexistência serviu de argumento contra a teoria e a clínica psica - nalíticas? Teríamos enm encontrado e aberto a caixa preta do psiquis - mo humano, como gostavam de dizer os comportamentalistas?Essa questão é importante porque problematiza os limites da psicanálise, epistemológicos, metapsicológicos e clínicos. Mas o que  Rev. Filos., Aurora, Curitiba, v. 23, n. 33, p. 453-473, jul./dez. 2011 WINOGRAD, M. 456 chama a atenção nessa reportagem nem é tanto a vericação empíri - ca, ocialmente cientíca, da reciprocidade da relação entre a biolo - gia do corpo e as variações psíquicas. Não há aí surpresa nenhuma. A manchete da reportagem, “Substância inócua combate Parkinson”, é que causou estranheza. Mesmo depois de “provado cienticamente” que imaginar a própria melhora quando se está doente pode produzir variações neuroquímicas de grande magnitude, pretende-se continuar fazendo crer que essas variações foram “produzidas” por uma subs - tância ainda que inócua, o placebo. Essa manchete, e tantas outras se - melhantes, são expressões do projeto de naturalização do psiquismo implementado desde meados do século XX, em conformidade com a hegemonia pretendida pela concepção do ser humano como uma má - quina que pode ser projetada, construída e programada. Desse ponto de vista, assim como o fígado secreta a bile, o psiquismo seria somente uma secreção cerebral, como disse Canguilhem (1993) em uma confe - rência célebre proferida em dezembro de 1980. Nessa conferência, Canguilhem (1993) combatia em bloco, não as ciências e seus avanços, não os trabalhos modernos sobre os neurô - nios, os genes ou a atividade cerebral (embora algumas das conclusões desses trabalhos devam mesmo ser combatidas). Canguilhem (1993) atacava ferozmente as psicologias que, ao misturarem ciência da cog - nição, inteligência articial, experimentalismo, neurobiologia etc., não passam de instrumentos de poder, biotecnologias do comportamento humano que enfraquecem a liberdade e a potência de pensar. Como devemos entender tais discursos biologizantes e como evi - tar assumir uma postura pusilânime, defensiva e conservadora, que faz com que pareçamos defensores de um espiritualismo retrô e de uma ilu - são religiosa que nós mesmos nos esforçamos por dissolver? Seria o caso de buscar, se não composições, pelo menos o diálogo com as biologias? Se sim, com quais discursos, como e por quê? Ou, antes, não seria o caso de analisar distanciada e criticamente, mas sem dogmatismos, tais dis - cursos e os modos de subjetivação que eles produzem? Essas perguntas são apenas exemplos das que têm nos ocupado ultimamente. Uma rápida consulta à bibliograa sobre as relações entre psi - canálise e neurociências, em particular, mostra que há um aspecto

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Aug 1, 2017
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